terça-feira, setembro 04, 2007

Alma Inquieta


I

Noite ainda, quando ela me pedia
Entre dois beijos que me fosse embora,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

"Espera ao menos que desaponte a aurora!
Tua alcova é cheirosa como um ninho...
E olha que escuridão há lá por fora!

Como queres que eu vá, triste e sozinho,
Casando a treva e o frio de meu peito
Ao frio e à treva que há pelo caminho?!

Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!
Não me arrojes à chuva e à tempestade!
Não me exiles do vale do teu leito!

Morrerei de aflição e de saudade...
Espera! até que o dia resplandeça,
Aquece-me com a tua mocidade!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava...
Espera um pouco! deixa que amanheça!"

- E ela abria-me os braços. E eu ficava.


II

E, já manhã, quando ela me pedia
Que de seu claro corpo me afastasse,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

"Não pode ser! não vês que o dia nasce?
A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta...
Que diria de ti quem me encontrasse?

Ah! nem me digas que isso pouco importa!...
Que pensariam vendo me apressado.
Tão cedo assim, saindo a tua porta.

Vendo me exausto, pálido, cansado,
E todo pelo aroma de teu beijo
Escandalosamente perfumado?

O amor, querida, não exclui o pejo...
Espera! até que o sol desapareça,
Beija-me a boca! mata-me o desejo!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava!
Espera um pouco! deixa que anoiteça!

- E ela abria-me os braços. E eu ficava.


Olavo Bilac. In: Poesias.


Um dia desses amanheceu.
Uma garoa fina, silenciosa,
Ela partiu.

- Guardando abraços,
e o borrão de café na camisola.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Sweeter

Não há felicidade maior. Um flerte, uns olhares traiçoeiros, uns sorrisos despercebidos.
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A Sra. das Peripécias Desimportantes me buscou, tarde da noite. Na garagem, desligou o carro e iniciou um quase monólogo. Não pude ouvir, não conseguia ouvir uma só palavra claramente. Observava suas mãos, gesticulava muito, aumentava o tom da voz. Eu balançava a cabeça em reprovação a cada pausa que ela fazia, como se esperasse uma resposta. Não foi proposital, tentava me concentrar mas não podia, estava em outro lugar.
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Sorri um desses sorrisos despercebidos relembrando aquela tal conversa recheada de malícia e segundas intenções. Mentes perigosas. Ela parou de gesticular, nem movia-se, inacreditando naquele sorriso de canto de boca, afinal, o assunto era seríssimo (?!).
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E novamente o silêncio me faz descer das nuvens. Fico assim, inteiramente satisfeita com o pouco que você me deixa - porque mal me larga e já me agarra. Fico aqui, ou ali sozinha no carro, guardando cada você comigo, para outro encontro logo mais.
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"Você não deveria ser a substituta de ninguém, menina."
Àquele, que não sabe a felicidade que me traz.

domingo, agosto 05, 2007

Permutável

Não é uma questão matemática.
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Mesmo que todos, por trás de portas bem trancadas, sejam um pouco mais humanos. Apelativos, fracos, frágeis. Todos necessitados, insatisfeitos, desiludidos. Implorando por um telefonema, uma carta. E, algumas tantas vezes, você realmente precisa correr na direção da contra-mão, só para ver quem se habilita a se afogar em um poço alheio.
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Ao sair porta afora, vestimos nossas máscaras. Todos plásticos, frígidos, desconsolados. Desacompanhados pela nossa própria determinação ou simples desejo, simples "care about". Umas noites mal dormidas, e o único Deus que todos servem é a propaganda de uma vida irreal.
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Passamos toda a nossa vida velando cada detalhe, escrevendo nossos livros, descrevendo as calçadas minuciosamente. Quase tudo sobre nós, nossos mundos paralelos. E a única parte que deixamos de fora é a verdade. Que de tanto ignorar, deixou de existir. Que alívio!
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Mas a verdade, a impiedosa e imponente verdade, é que depois de muitos anos, você usa a máscara por tanto tempo, que esquece de quem costumava ser debaixo dela. E como tudo que um dia teve o seu merecido valor, desaparece, é substituído por algo prático.
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Em breve, muito além dos guardanapos e embalagens, nos tornaremos descartáveis. Substitutos e substituídos. Esse é o futuro, esse é o horizonte. A linha que recua conforme nos aproximamos. E o som dos violinos pincela o fim delicadamente quando descobrimos que temos um horizonte. Há um nome, há um endereço, há para onde rumar. E, tantas vezes, é tarde demais.

- Se for assim, eu nunca te conheci de verdade.
- Sou essa, que está falando com você exatamente agora. Mas é aqui onde eu fico, entre você e o vestígio do que eu poderia ter sido.
- Então o que eu fui para você?
- O meu breve horizonte.

domingo, julho 29, 2007

Ainda Há Tempo

Acordou tarde no meio do silêncio que cobria toda a casa. Caminhou pelo corredor, fez um chá e se abandonou no sofá. Televisão desligada, janelas fechadas e um frio insuportável. Meias até os joelhos, metade do cabelo preso, não agia como se fosse bonita, nem que realmente estivesse, porque o espelho só refletia tristeza. Uma falta enorme, um vazio, uma solidão. Só aí percebeu o quão sozinha tem se tornado. Dia após dia, o único som na casa das paredes surdas, tem sido o som do despertador, pontualmente às 6h30 da manhã. Levanta exausta, não dorme mais como antes, simplesmente não dorme mais.
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O emprego é bom, o salário é digno e as aulas são suficientemente explicativas. De onde vem a falta? Falta do quê? Desistiu de responder e culpar-se, ou mesmo culpá-lo. Tomou um banho, deixou o vidro embaçar, decidiu não chorar e finalmente deixou o amor que já estava por se acabar. Ele se foi. Aceitar a ruína de si e de tudo que poderia ter sido foi o melhor que ela pôde fazer, para ambos os fracassos. Pessoas vêm e vão. Umas voltam, outras não. E, contudo, poucas permanecem.
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Que para nós nunca houve um amanhã após telefonema, após declaração. Que o amanhã nunca chega, dependa de nós ou não. Por hora, eu só gostaria que ele tivesse ficado um pouco mais, um pouco depois, um pouco tarde.
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Cansou de buscar um comum, um honesto, um verdadeiro. Daqueles, para chamar de meu. Queria ser encontrada, e sua impaciência lhe trouxe todas essas desilusões. E por onde recomeçamos quando nunca houve um fim seguido de ponto final e um doce adeus? Não o faremos. Parece simplório demais para sair da boca do caos que é ser ela. Mas aceitou, educadamente. Pela falta de opção, para sustentar a máscara, quem sabe? Mas aceitou os caminhos que a vida desenha; desses desenhos de criança, ingênuos, desalinhados.
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Entardeceu ao som dos pianos naquele dia. Felizmente, ela decidiu não deixar mais a vida passar diante de si. Que a vida é curta, e a felicidade menor ainda. Não é algo palpável, mas sim perecível. O caminho a percorrer, a busca, o que você faz para chegar até lá, é o que vale a pena. A felicidade é um único momento, frágil, efêmero. Uma música, um telefonema, um dobrar de esquina, e já passou, não está mais lá.
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Lembrará com a saudade de uma foto antiga, todas aquelas tardes.
Que ainda há vida por trás das cortinas. Ainda há tempo.

sábado, julho 21, 2007

Together

- Está pronta? Podemos ir?

Ela terminou de colocar os brincos e dirigiu-se à porta. Contou todos aqueles dezesseis degrais - e quão intermináveis pareciam. Ele a esperava no pé da escada, sorrindo, contente. A segunda moça que carrega para emergências surgiu, retribuiu os sorrisos e o contentamento.

Entraram no carro.

- Pode escolher a música - ele disse.

Ela queria ouvir o silêncio dos sapatos baixos novos, mas colocou a última música adicionada ao MP3, Something A Bit Vague, de Julie Delpy. Ela queria a calma, a quietude da estrada... Mas era uma emergência, aquela de não decepcionar o carinho e a vontade de cuidar daquele rapaz.

Chegaram, desceram do carro. Delicadamente ele aproximou sua mão da mão dela. Incerto de que deveriam chegar de mãos dadas ou não, não chegou a entrelaçar os dedos, como se esperasse uma resposta. Ela sentiu aquela mão fria e insegura, saiu daqueles mundos paralelos em que vive, e respondeu o que ele queria ouvir. Ouvia-se ao longe um violino e via-se luzes quase parisienses.

- Aqui estamos, juntos.



E naquele quase imperceptível momento, ela decidiu jamais deixá-lo só.

quinta-feira, julho 19, 2007

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For every heart that cries,

love left a window in the skies.
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sexta-feira, julho 13, 2007

Leaving Behind

Hoje me ocorreu que algumas vezes, aquilo que mais queremos entre todas as coisas é o tudo que nos falta para deixarmos de sermos nós. E errantes, desequilibrados ou, ainda, apenas nós... Largamos, desistimos, abandonamos. Abandonados pelo nosso próprio mistério, pelo nosso direito de amar.

O quê mais queremos... Nossa fraqueza, nosso poder, nosso suplício e, ainda que em doses homeopáticas, nosso deleite. Mas a pergunta paira no ar: Corajosos ou covardes? Apenas um pouco menos infelizes. Nem mesmo a realidade pode ser mais cruel do que a ilusão. Não vale a pena viver sonhando e se esquecer de viver.

É preciso ter coragem, então? Para deixarmos para trás quem mais amamos? É preciso ser altruísta o suficiente para jogar pela janela da vida em movimento a nossa felicidade? Sim, é a resposta.

Mas será preciso ser covarde? Ser egoísta para sermos, ainda que infelizes, conformados com a estabilidade de nossas vidas? Sem altos e baixos, sem provar o irresistível? Sim, é a resposta.

No mesmo hoje me pediram para explicar o porquê das roupas desbotadas, das meias trocadas e da palidez no rosto - dessas que só surgem quando nada encobre o silêncio. "Perdi o insubstituível", disse. Antes que o alguém não soubesse o que dizer em seguida, completei: "Perdi, não. O abandonei consciente da dor que me perseguiria e que, como vê, me faria decadente, descendente do amor que digo sentir", e subi as escadas sem esperar um comentário.

No fim, seremos o tempo desperdiçado em não-ações, não-amores... Seremos consequências. Acreditando, mesmo que secretamente, que aquilo que mais quisemos um dia aparecerá na nossa porta, ao lado do jornal, com um ramalhete de flores. E nesse momento, nessa ínfima possibilidade, conheceremos o gosto da felicidade combinado com todo o tempo perdido.

domingo, junho 24, 2007

Cá Entre Nós

Cedo acordou e no jeans 38 entrou. Atravessou o corredor e percebeu que a casa precisava de cor. "Comprarei as flores eu mesma", pensou. Bateu a porta como se não fosse voltar - e até então, realmente não voltaria. Desceu os degrais apressadamente e ouviu algo cair no chão. Mas nada a faria voltar atrás. Nada.
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Enquanto esperava o ônibus e estalava dedos, costas e nuca, abriu a mão direita - o lembrete era claro, "Respire". Tomou o ônibus e sentou ao lado da janela. A beira da estrada era a única testemunha do seu desaparecimento. "Silenciosa estrada, eu espero", sorriu.
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Três horas e meia de viagem e ela só queria dormir. Nada mais. Mas quando se tem insônia você nunca realmente adormece. E você nunca realmente acorda. Buscou uma distração qualquer através da janela empoeirada. Nada, era só o asfalto de uma estrada que ela jamais havia visto, e ridiculamente como todas as outras.
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Pensou nos valiosos objetos que deixou para trás. Nas suas coleções, suas páginas e mais páginas de folhas espalhadas pelas gavetas. Podia ver todos aqueles metros quadrados vazios e em tantas ocasiões entulhados de pessoas luxentas, que só estavam lá para falar dos segredos dos outros, e desses outros aterrorizados pela possibilidade dos seus pecados explícitos. Ah, Sophie, sempre dando festas para encobrir o silêncio. Fechou os olhos e podia tocar aquelas paredes desgastadas e descoloridas... "As flores!".
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Levantou ofegante e acionou a campainha. Desceu no ponto seguinte de "lugar-nenhum". Imagine um deserto acutilado por uma estrada e cercado de ventos arenosos onde você é o que os atrai. Imagine e estará lá, também. Sophie sentou-se em um banco pouco convidativo, levou as mãos a cabeça e admitiu: "Estou perdida". Em seguida soltou uma risada que pareceu ecoar por todo aquele deserto.
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Foi então que ele apareceu: "Tá fugindo de quem?". Era um homem alto, jovem, apático e só tirava as mãos dos bolsos da jaqueta de couro para acender o próximo cigarro. Havia algo extremamente atraente nele, Sophie percebeu desde a primeira vez que lhe pôs os olhos.
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"O quê?", ela respondeu. "É, fugindo de quem?", ele insistiu enquanto acendia um cigarro. "O que o faz pensar que eu estaria fugindo de alguém?", ela replicou usando seu tom mais culto. "Tem um excesso de desespero na sua risada", ele esticou o pescoço e fitou-a enquanto aproximava-se. Ela, gaguejou umas sílabas e não chegou a dar uma resposta. Mas ficou pensando no ato de fugir, no desespero que sentia e principalmente: "Do quê eu fugi?". Ele a ouviu murmurar, ofereceu um cigarro, e: "Precisa de ajuda?". Ela esticou a mão e levou o cigarro a boca, ele acendeu. "Eu não tinha porquê fugir, não comprei as flores, não sei onde estou e nem como voltar, e aceitei um cigarro de um estranho" e ele "Pra ser sincero, acho que eu sou a sua menor preocupação".
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Os dois riram e conversaram por horas no deserto sem pêndulos. Até que um ônibus surgiu no horizonte. Seria aquele ou nada mais importaria além do momento, de estar ali com aquele estranho e da felicidade barata que sentia. "É isso, é o adeus" e ela "Acha que vamos nos ver de novo, algum dia?" e ele "Você sabe onde me encontrar, linda Sophie".
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Não, ela não sabia. Mas entendeu que, por destino ou acaso, ele estaria lá todas e quantas vezes ela precisasse. Sem promessas, sem endereços, sem testemunhas. No final, tudo o que resta é o que sabemos que vivemos e o que nos faz ser quem somos, mesmo que desconhecidos ou estranhos, ou perdidos.
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Sophie subiu no ônibus e acenou para ele. Ele acenou de volta, e da mesma maneira que surgiu, desapareceu. Chegando em sua pequena cidade ela comprou as flores. As pessoas, as ruas, as calçadas, tudo do mesmo jeito que ela havia deixado. Vez em quando, ela se perdia quase que propositalmente, pois sabia... Ele estaria lá.

quarta-feira, junho 13, 2007

Azo ao Derradeiro

Que não me condenem os amores e os amados, mas daquela singela delícia eu padeci. Talvez o cair em mim deva-se ao calçar e descalçar botas de outrem, o que não apaga o sofrimento titulado como suplício.
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Seu momento da verdade é efêmero e derrocado, no encaixar das palavras é inconsciente. Não culpo você. Seria desinteressante e monótono se não fosse exatamente como é. Sua mentira é contingente, e nem por isso menos apaixonante. Mas minhas mãos estão gastas de tanto pincelar seus delírios. De contornar seus lábios para os mesmos me arrebatarem e, então, me largarem o corpo e a alma para que o tempo me faça perecer com indiferença.
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Pobres deles! São meus livros que escrevem-se com tinta chorosa e borralheira, devido ao indecifrável mistério que recolhe em seus olhos.
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É o que digo, meu bem, arrependida antecipadamente. O tudo que sobra de você em mim, arrastando-se, precedido de ponto final, são os papéis avulsos sobre a mesa das noites incuráveis. E fim.
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Pois o meu fardo já é dádiva, e a sua dúvida é lamentável. Sua perda resume-se a nada, mas informo-lhe que este nada que lhe escreve encontrou num dia como outro qualquer um futuro e um amor certo para seguir. Mesmo que como os que foram e os virão, este esteja fadado ao triste fim.
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Por você e por mim, vou fazê-lo todas as boas lembranças que nós merecemos um dia.

domingo, junho 10, 2007

De tudo que aprendi nos discos

Houveram pêndulas e uma doce melodia de Elis. Ela acordou há anos, acordou no leito de sua avó, talvez. Explodiam bombas e gritos sufocados de um país quase perdido. "Os canhões têm sua beleza", pensou. Desceu as escadas do sobrado esverdeado e sombrio. Caminhou pelas ruas sangrentas de 1982. Nunca respirou tanto Brasil antes. Todas as imagens corriam pelas calçadas, e ela ali, vivendo o passado que gostaria de ter vivido.

Os meses passaram como nuances, até que chegaram ao fim do silêncio. O dia é 15, o mês é Janeiro, o ano é 1985 e a esperança tem nome - Neves. O verão deve ter sido o culpado do foco de luz naqueles sorrisos e tantos abraços em desconhecidos, das lágrimas caindo pelas perdas e pelo ganho de mais um dia enfim, e o turbilhão de alegria.
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Gente jovem reunida...

Ela acordou com Elis espalhando-se por debaixo de sua pele. Estava em seu quarto, com seus livros, seus discos e sua confortável realidade. Mas nada poderia apagar o passado, aqueles rostos e o som dos canhões. Suspirou descontente, já sentindo saudade de tudo que ela nem se quer viveu, nem se quer acordou para sonhar.

Elis lhe faz companhia enquanto ela tenta, ao menos, revolucionar seu próprio guarda-roupa.


"Já faz tempo
eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
essa lembrança é o quadro
que dói mais
Minha dor é perceber
que apesar de termos feito
tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos como nossos pais"

sábado, junho 02, 2007

Depois do Amanhecer

Despertou um pouco depois do mundo despertar lá fora. Sentia-se deslumbrante. Vestiu a camisa branca que deixou de cobri-la no quadril. Caminhou em passos quase divinos até a cozinha, preparou um café e tomou o primeiro gole encostada na pia. Atravessou as salas e parou em frente a lareira, ainda queimando em chamas frágeis. Lembrou-se da noite anterior e do que havia esquecido sob os lençóis. Voltou a cama em passos silenciosos e, ao deparar-se com o sol nascendo através da janela, notou que não estava sozinha. Pegou uma cadeira e levou-a para o centro do quarto pitoresco. Sentou-se, tomou mais um gole de café e sorriu, quase que despercebidamente.

Terminou o café e o corpo sobre a cama permanecia adormecido. Uma brisa de maio invadiu a cena pela fresta da janela entreaberta, arrepiando até os calcanhares, interrompendo a contemplação daquela felicidade tão branda, tão cinematográfica.

De repente, fixou o olhar dilatado na sutileza dos movimentos do corpo que, talvez também sentindo os sopros da estação, despertava lentamente. Ele começou a levantar-se quando a viu imóvel, hesitante. Sorriu em sua direção e com voz de sonho, pediu para que ela ocupasse o espaço vago na cama. Ela desfez-se da dúvida e encaixou-se no abraço confortante daquele sorriso doce.

O amor estava lá. Ela podia sentir em seus ossos.

quarta-feira, maio 23, 2007

Nuances

Desde que me ouviu cantarolar Imbranato, em cada silêncio no espaço entre nós ele me pede para cantar "whatever, beauty" em italiano. Me pega nas curvas das peripécias que conto - porque com ele, eu falo compulsivamente - e num silêncio que eu não sei de onde vem; um cruzar de pernas, um jogar de cabelo ou um discreto bocejar. Ele leva uma das mãos ao queixo enquanto a outra segura firme a minha, e apoia o cotovelo na ponta da mesa. Às vezes, ele sorri despercebidamente e eu me pergunto se os meus olhos me entregam, e paro: "O que foi?" e ele "Nada, nada... Eu gosto de ouvir sua voz". E deveriam filmar esses momentos, pois eu posso jurar que nada disso existe, que são nuances de um sonho bom. E se assim for, eu lhe imploro, não me acorde.

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"E até quem me vê
lendo o jornal na fila do pão,
sabe que eu te encontrei"

sábado, maio 19, 2007

Don't give your love away

Chegou em casa como furacão e foi jogando os livros pelo corredor. Entrou no chuveiro na esperança de aliviar-se. Jogou os braços no vidro embaçado e em linha vertical, abandonou-se. Bateram a porta muda e nenhum ruído de lá saiu. Insistiram três ou quatro vezes, mas logo perceberam que só fariam esperar.
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Do lado de dentro os sentimentos eram intensos e confundiam-se. O gosto ácido de arrependimento na boca não a deixava levantar. A água, que antes escorria como perdão divino, não lavava sua alma, não mais. Sua mente corria em anos-luz, rejeitando o passado, buscando um destino. Criou milhares de desculpas para si mesma e, ao fim, percebendo que não haveriam argumentos convincentes, admitiu. Matara o amor naquela manhã de muitos casacos e poucos motivos.
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Uma, duas, três. Quantas vezes a mesma lamentável história vai se repetir? Ao trancar a porta é tudo desapego. Brindou a decadência e a ausência de esperança num grito interno.
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(A quebra do silêncio que só você escuta.
A quebra do silêncio que só, você escuta.)
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Desligou o chuveiro. Enrolou-se na toalha branca com seu nome bordado em letras grandes. Passou a mão pelo espelho que só refletia vultos e não reconheceu a mulher que havia se tornado. Não ouviu sua voz, mas leu seus lábios que diziam: "Então, isso é felicidade para você?"
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Destrancou a porta e atravessou o corredor como quem não conhece o caminho de onde se quer chegar. Sentado na cadeira, ela encontrou aquele rosto de expressões tão doces enterrado em suas mãos. Notando sua presença, ele levantou-se e não disse nada - e nem precisava - os olhos diziam todas as verdades. Nos olhares perdoaram-se e num abraço exagerado, encontraram-se como quem se perde e só pensa em voltar para casa, para o conforto. Sem longas frases, concordaram: "That reality, it's going to eat us alive."
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Sairam de casa naquele dia como se o desespero jamais tivesse estado lá.

sexta-feira, maio 11, 2007

Behind Blue Eyes

Os observadores olhos azuis da sala ao lado resolveram me atirar do penhasco, hoje. Por fim, confessaram em tom de segredo a minuciosa narrativa que me tem como tema. Oh, sad blue eyes. Escrevo trechos da carta que me fez morrer - de felicidade. E revelou o que era meu - meu mistério.
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"Ela sempre carrega um livro dentro da bolsa. Surge um diferente em torno de três dias e acredito que leve esse tempo para lê-los. Deixou de ser opcional, eu acho."

"Ela tem uma calma no olhar que eu não sei quão profundo me atinge, e paralisa. E mesmo nervosa, quando estrala os dedos e morde levemente o canto da boca, ela consegue ser doce."

"Hoje o sorriso dela estava tão triste. Quase passou despercebido, ela se esforça pra se segurar. Ligou e desligou o celular muitas vezes. Depois olhou pra mim e antes que eu me levantasse, sorriu um sorriso desiludido, de quem se cansa de esperar mas não desiste."

"Ela teve um amor, já deu pra sentir. O modo racional como ela fala de relacionamento não me convence. Tanto mistério por trás daquelas mãos amáveis."

"Qualquer adjetivo pode parecer meio bobo quando se está tão perto de conhecê-la verdadeiramente. Ela é o tipo de garota que a gente encontra por acaso, ali ou aqui, talvez numa torrente de azar e quando se dá conta já não consegue ficar longe. Eu não consigo."
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Quando terminei de ler as quatro folhas, extasiada, emocionada, meio morta e meio viva, disse: "Logo você, dono desses olhos suspeitos!"

Ele respondeu, sorrindo: "Agora eu sou culpado, confesso."



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My own world behind those blue eyes.

domingo, abril 29, 2007

Striptease

Chegou no apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender.
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Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente. Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.
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Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".
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Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."
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Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou". Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei".
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Por fim, a última peça caía, deixando-a nua:"Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".
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E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.
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Por Martha Medeiros.
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E tudo que eu gostaria de dizer.
Da coragem, só restou a poesia.

sexta-feira, abril 27, 2007

Lovely Friday

São sextas-feiras como esta - cinzentas, chuvosas, mas muito confortáveis - que fazem a semana valer a pena. À noite, como de costume, fui alugar alguns filmes. E após uma longa e deliciosa conversa com o Ricardo (o cara do "oi! tudo bom?"), os meus bolsos esvaziam-se e o meu coração bate acelerado por essa enorme e eterna paixão por cinema. Os filmes dessa sessão você pode conferir no The Script, nos próximos dias.
  • Livros













Sim, essas belezinhas chegaram hoje. Pelo que pude ler até agora, são ma-ra-vi-lho-sos! Recomendo, claro. Para quem quer manter os pés no chão e cabeça nas nuvens.
  • DVD

Ah, eu adorei esse filme. É bastante fiel ao livro. Talvez um pouco longo, mas instigante. Audrey Tautou e Tom Hanks se encaixaram perfeitamente nos personagens, creio eu.
Sinopse: Robert Langdon (Tom Hanks) é um famoso simbologista, que foi convocado a comparecer no Museu do Louvre após o assassinato de um curador. A morte deixou uma série de pistas e símbolos estranhos, os quais Langdon precisa decifrar. Em seu trabalho ele conta com a ajuda de Sophie Neveu (Audrey Tautou), criptógrafa da polí­cia. Porém o que Langdon não esperava era que suas investigações o levassem a uma série de mensagens ocultas nas obras de Leonardo Da Vinci, que indicam a existência de uma sociedade secreta que tem por missão guardar um segredo que já dura mais de 2 mil anos.
  • Cinema












Dentre vários, o meu "D Duplo" é composto por estes dois filmes. O primeiro, Maria Antonieta, faz o gênero alternativo, escrito e dirigido por Sofia Coppola - sim, a filha do diretor de O Poderoso Chefão. Com a participação da graciosíssima Kirsten Dunst (de Homem-Aranha). O segundo, Piratas do Caribe 3, é o tipo de filme hollywoodiano, superprodução e coisa e tal. Mas com a participação de Johnny Depp (de A Fantástica Fábrica de Chocolates), Orlando Bloom (de Senhor dos Anéis) e Keira Knightley (de Rei Arthur). Vale salientar que a estréia será no dia 25 de Maio.

Então alguém com carro, bicicleta ou coragem para me sequestrar da minha vida... Por favor, me leve ao cinema! (risos)


  • Exposição
Ele idealizou o helicóptero e a bicicleta; desenvolveu trabalhos de anatomia e mecânica. Nas horas vagas? Ah, ele pintava.


LEONARDO DA VINCI - A EXIBIÇÃO DE UM GÊNIO

A maior exposição do artista. Com mais de 150 peças: 75 máquinas em Grande Escala, Manuscritos, 40 Desenhos, Arte Renascentista, Documentário e Animação 3D.

A genialidade do inventor, cientista e mestre da pintura italiana Leonardo da Vinci (1452-1519) está sintetizada na amostra de 150 peças. São todas réplicas, já que a maior parte de seus desenhos, estudos anatômicos e os famosos códigos Da Vinci - espécie de manual didático - não sai das instituições onde estão guardados. Entre as atrações está o estudo O Homem Vitruviano, representado numa montagem tridimensional.

Parque do Ibirapuera, portão 3. Segunda a sexta, 9h às 19h; sábado, domingo e feriados, 10h às 20h. Bilheteria R$ 30,00. Até 29 de julho.


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E a minha adorável sexta-feira acabou em um jantar maravilhoso com a Monalisa. Agora, só falta uma enorme xícara de café ao som de Alanis Morissette.


quinta-feira, abril 26, 2007

O Futuro que vem aí

Quando é pra falar de Brasil eu grito além dos muros. O texto que segue, apesar de um pouco longo nessa estrutura virtual, vem falando de otimismo e realidade. Gosto da maneira como decompõe a tendência negativa – e correta, claro, mas eventual – quando falamos em Brasil. Pois esse é o nosso País! E patriotismo não pode existir apenas ao final de uma gloriosa copa do mundo. Leia, reflita e opine, se desejar.

Enquanto a elite política repetia os erros do passado, o País seguia em frente.
Nesses 500 anos, o Brasil saltou da Idade da Pedra para a Era da Informática. Um brasileiro, o marechal Rondon, ensinou o mundo a respeitar os indígenas. Outro, Mauá, dirigiu bancos e empresas multinacionais antes que alguém falasse disso.
Apesar do que dizem os americanos, foi um brasileiro que deu asas ao homem: Santos Dumont, com seu 14 Bis. E outro, o cientista Carlos Chagas, ensinou países tropicais a combater a doença que ficou conhecida pelo seu nome.
O Cinema Novo, criado no Brasil, mexeu com as cabeças pensantes do mundo.
A seleção brasileira de futebol impôs um estilo de jogo que encantou o mundo, e em outros esportes temos acumulado vitórias e mais vitórias. E Pelé, símbolo do futebol-arte, virou marca mundial de qualidade e criatividade.
A obra do escritor Machado de Assis agora é descoberta na Europa e nos Estados Unidos. E Guimarães Rosa, um dos nossos maiores escritores, depois de sua morte conquistou a admiração do mundo.
Desde os tempos da Bossa Nova, nossa música faz sucesso por todos os cantos do planeta, da América do Sul ao Japão e da Rússia aos Estados Unidos.
Mas foi com o trabalho anônimo de milhões de brasileiros que chegamos até aqui. Criamos universidades, desenvolvemos a pesquisa científica e hoje somos um dos maiores fabricantes mundiais de automóveis e aviões.
Nos tempos coloniais, quando o povo nem tinha voz, o Brasil produziu mais riquezas que os Estados Unidos, apesar de maus governos, da corrupção e dos impostos que sufocavam a produção econômica.
Agora que vivemos numa democracia e o povo fala e decide, o País pode inaugurar um novo século em condições de crescer cada vez mais e resolver de uma vez por todas os problemas que ficaram do passado: pobreza, fome, analfabetismo, corrupção e todas as manchas de autoritarismo e impunidade que ainda existem por aí.
Houve um tempo em que se dizia, na Europa, que nenhuma civilização podia sobreviver nas regiões tropicais, porque o clima quente e as doenças faziam o homem ficar preguiçoso e improdutivo.
Também se disse que a mistura de raças nunca ia dar certo: como é que portugueses, indígenas e africanos, que odiavam o trabalho, iam criar um país?
Fracassaram todas as profecias, feitas até por brasileiros, que condenavam o Brasil ao fracasso. Criamos uma sociedade na qual convivem pessoas de todas as raças, etnias e origens. Nem sempre em paz, como já vimos. Mas um dia a gente chega lá.
Só não podemos ignorar nossa História e as lutas, o sofrimento e o sangue com que foi construída. Não somos e nunca seremos um país perfeito, porque isso não existe. Mas o progresso, a paz e a justiça com que sonhamos só dependem de nós.

(Retirado de “Brasil 500 anos – História do Povo Brasileiro”, escrito por Sebastião Martins e André Carvalho)

domingo, abril 22, 2007

The Next Door Waits

Quando algo além do meu controle acontece, eu só consigo escrever na terceira pessoa. O que é um tanto covarde da minha parte, admito. Mas para quem, como eu, tem essa necessidade de congelar momentos e detalhes... bom, isso funciona. Talvez porque nesses instantes abençoados pelos elementos naturais, eu não seja eu, entende? Nesse instante, não sou aquela que acorda cedo, toma banho, penteia o cabelo, escova os dentes e segue o roteiro. Nesse instante, sou uma das personagens das mil e uma estórias que crio como final alternativo das coisas. E talvez isso seja vida. Esse sopro de poeira cósmica onde tudo que você faz é construir memórias.

Eu, no caso, vivo de intervalos. Sim, aqueles momentos em que você se recolhe em seu lado de dentro. Está acompanhando? Por exemplo, aquele instante, antes de sair de casa, quando você olha tudo e desce as escadas imaginando “quando será a última vez?”. Ou na metade da sua rica correria, dentro do ônibus, quando você contempla todos aqueles rostos que, muito provavelmente, não vai tornar a ver. Tudo ali, e então o olhar se perde e, no sopro, tudo desaparece.

O que é realidade, afinal? Porque nesses intervalos, eu posso jurar que o tempo pára. Realidade, para mim, é quando eu me torno personagem. Quando a dor é tão grande que eu quero ser outra pessoa, estar em outro lugar. Consegue entender? Quando o medo de perder o momento presente se torna maior do que você e de tudo que você é até então.

Quero dizer, quando será a última vez? A última vez que eu vou descer as escadas girando o molho de chaves no dedo, enquanto o sol surge majestosamente para abençoar meu dia. Ou a última vez que eu vou dançar sozinha no quarto, quando ninguém está olhando e eu percebo quão divertido o tédio pode ser.

E então eu me torno personagem de uma história que recomeça na porta ao lado.

Ela se afasta com as mãos nos bolsos da velha calça jeans. Se afasta de tudo que um dia ela mais desejou ter. Para acordar numa manhã de domingo e dizer “é meu”. E quem pode dizer que será a última vez que ela encontra o amor? E quem pode dizer que não será?

Seja como for.
Just... go.

sexta-feira, abril 20, 2007

Last Looks

O problema é a espera.
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Malas prontas e o trêm para "qualquer lugar" passará em breve. Ela espera, sentada em um banco antigo de madeira. Poucas malas - ela não tem história para contar - uma mochila bege, contendo todos os seus valiosos detalhes. A roupa fica entre o vestido verde e o jeans azul - indecisa entre ser mulher e ser menina. Os calçados ela não escolhe mais, vai descalça. O sorriso é satisfeito, mas imcompleto. O olhar se perde no horizonte distante, os olhos acostumam-se, aos poucos, com a ausência das lágrimas. O cabelo é o mesmo de sempre, bagunçado, debochado e cacheado - o cabelo não a irrita mais. É outono. As folhas amareladas caem sobre ela, ali, parada à espera. O som é do vento, soprando o passado para longe. Mas o som dos fones é Linger dos Cranberries - porque, talvez, seja uma boa pedida para a despedida. Procura no lado de dentro o pouco que sobrou - fim dos trilhos.
No final da estação ela observa o moço, correndo em sua direção. Ele se ajoelha, exausto, e deita a cabeça em seu colo. Ela o acaricia e, imediatamente, o perdoa pelo atraso. Ele respira devagar enquanto a observa, com aqueles grandes olhos que chovem ternura e diz:
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- Fique comigo.
- A passagem já está paga. - ela sorri - Este é o lugar que você pertence, onde o seu belo futuro está.
- O meu futuro é incerto, mas está claro para mim que é ao seu lado.
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Ela não chora. Só o abraça forte. Nesse instante, ele soube que o tempo a levaria para sempre. O trêm apita ao longe e, finalmente, chega. Ela salta para dentro, senta ao lado da janela e o observa, desolado. A espera dela se mistura entre o trêm e o verdadeiro amor. Não admite para ninguém, mas vê seu futuro ali, chorando ternura e mágoa. Contudo, ela sabe que o seu único lar sempre foi seu lado de dentro, e toda a doçura que aquele amor deixara lá. Da janela ela observa o outono e a cena que ela jamais esquecerá. E como uma especialista em últimos olhares, aquele era, incognitamente, do seu único grande amor.
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***

domingo, março 25, 2007

Traços e Passos


Ela admira no reflexo do espelho os traços de sua juventude. Os ombros lascivos, os lábios rubros e as curvas que a tornam uma bela mulher. Cuida dos pés, pois a caminhada é longa, cuida das mãos, pois alguém pode precisar de ajuda, cuida do colo porque um dia ele vem, e ela não irá deixá-lo ir embora, porque ele ama tudo que ela tanto cuidou.

O resto do roteiro ela já sabe: Vocês vão brigar inúmeras vezes por motivos que nenhum dos dois lembrará no dia seguinte porque, quando se ama, tudo isso vale a pena. Vão ter filhos e vê-los crescer, e suas vidas passarão. Ao final da jornada você terá traços de experiência, que não serão nada mais do que os seus erros aglomerados em uma palavra soando satisfatoriamente. O reflexo do espelho terá rugas e cabelos brancos, porque esse é o prêmio que se recebe por fazer a coisa certa, da maneira certa. Passeará pelos parques e vez ou outra verá uma jovem, com o olhar perdido no horizonte, e sorrirá, pois esse jovem silêncio é sinal de um amor pré-maturo, raiando ao amanhecer da vida.

- Então o que a senhora sugere?
- Encontre a pessoa certa e viva da melhor maneira possível.
- E se eu não encontrá-la?
- Mas ela está por aí, mocinha, procurando por você.

A jovem se levanta e segue em passos rápidos com traços de esperança no rosto. Atrasada, perde o ônibus e acaba por conformar-se em um dos bancos. Pensa na senhora, nos conselhos, e enquanto tenta traduzir todos os pensamentos, encontra uma carteira caída no chão. No mesmo instante, surge um rapaz dobrando a esquina da rua mal iluminada, apressado e desajeitado, que vem ao seu encontro e diz:

- Pelos céus! Muito obrigado por ter encontrado!
- Por nada – ela responde confusa.
- Quando perdi o ônibus, sentei bem onde você está, mas logo desisti de esperar. Sabe, sou meio impaciente. Na metade do caminho dei falta da carteira. Muito obrigado mesmo! Não sabe o quanto procurei...

A jovem sorri pelo jeito do rapaz falar atropelando os fatos, e o rapaz gosta do jeito que o cabelo dela cai sobre os olhos quando ela sorri. Como gratidão ele a convida para um café, ela aceita, e ali o roteiro toma seu rumo.

A senhora volta para casa em passos lentos que a idade avançada proporciona. Senta em sua polida mesa e encerra o último capítulo de seu livro com a frase: “deixe o acaso fazer a sua parte”.

Talvez seja aí que acaba, mas já não restam argumentos se não for... Bom, é a vida.