quinta-feira, maio 22, 2008

Epifania Pálida

Hoje eu acordei querendo pensar branco. Pensar em azulejo de cozinha. Azulejo de cozinha, coisa banal. Só queria pensar no azulejo branco, naquelas dezenas de azulejos brancos à minha frente. E pensar no café. Café quente, quente. Descendo pela minha garganta. Eu sentia o café quente descendo pela minha garganta e sentia quando ele encontrava morada no meu estômago. Batia no estômago e queimava, ardia! Mas quando a quentura do café fazia doer, outro gole vinha logo em seguida e queimava também. E eu me esquecia do que ardia por dentro, porque ardia por inteiro. E enquanto ardia, o azulejo permanecia branco. Branco e calmo - calmaria puritana corrompível! Sim. Corrompível. Pensava branco, era banal. Eu adorava pensar branco e sentir ferver. Adorava. Adorei.
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Saí de casa sem vontade, não muito à vontade. Saí de casa e só. Mas não só. Saí de casa e a blusa subia, a saia descia. Roupa maldita e infernal! Quis ficar nua. Quis ficar do avesso. Eu quis ficar nua e do avesso e mostrar ao mundo como por dentro ardia e doía e queimava. Eu quis, mas foi um querer rápido de quem não sabe ousar. Eu quis, mas não pude. Não podia nem comigo, que dirá com o mundo. Ponderava. Ponderei.
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Restaurante. Entrei no restaurante, tímida. A roupa incomodava e nas unhas dos pés o esmalte estava pela metade. Ninguém sabia, ninguém notava, mas me incomodava. Pensa branco, mulher. Pensa branco. Primeiro a salada. Enchi o prato de brócolis e um molho que odiei, mas não fazia mal: por dentro ardia e queimava, e do molho eu não gostava. Molho. Pra quê molho? Coisa banal. O maldito molho me estufava. É, estufava. Estufei.
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Carro, rodovia, trânsito. Maldito trânsito! Acelera, acelera! Passa por cima que eu quero chegar do lado de lá! Mas não acelerava. Emputecida eu estava, mas não sou de demonstrar. Farol aberto. Caminhos abertos. Portas abertas. Tão bonito dizer "Minha porta estará sempre aberta pra você!", mesmo sendo mentira. Mentira, coisa tão banal. Tão divertida e ilegal. Normal. Tudo que eu gosto engorda, é ilegal ou imoral. Longe eu estava, viajava. Viajei.
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"Quanto tempo! Me dá um abraço aqui". As escadas eu subi sem saber o que dizer. Mas disse. Estranho, não lembro o que disse. Perdoa, não era o que eu queria dizer. Ah, sentei. Tentei me mostrar à vontade. Mas não tinha vontade. Fuck! De repente surgiu vontade de dizer uma porção de palavrão. Por que eu não posso ser, de verdade, assim como me mostro, de bem com a vida? Pensa branco, pensa branco. Oh, motherfucker. Me distraíram. Na hora eu esqueci, mas obrigada. Obrigada por me distrair, eu estava para explodir. Obrigada. Me falaram, uma porção coisas aleatórias que eu nem precisei perguntar. Obrigada. Com ela eu fiquei extasiada. Porra, também sou assim! Obrigada. Agora eu posso sair por aí sendo eu mesma, obrigada. Não tenho regras, não tenho rédeas. Vou cavalgar! Não me procure, não me espere. Longe eu sempre vou estar. Meretriz no Alabama ou mulher-bomba em Bagdá. Não vou ficar. Não ficava. Não fiquei.
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Hoje eu acordei querendo pensar branco. De um branco sem perturbações. Hoje eu vou dormir refletindo todas as perturbações do mundo, todas as cores. Perturbada, feliz e ainda extasiada. Eu mesma, eu só. Mas não só. Eu do meu lado, aventureira. Muito louca, de um louco banal. Velho mundo banal. Mas ainda meu, meu mundo banal. Do mundo eu quero o que vier. Quero viver. E viverei.

segunda-feira, maio 12, 2008

< Digitar uma mensagem pessoal >

Creio não saber o que escrever, porque já não sinto nada. Assim, inconsistente. Não é tristeza, nem alegria. É o silêncio do meu desespero.
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Eu gritaria, mas não quero por antecipação alardear o que está à minha espera. Tem que estar. Eu preciso que esteja. Para que o mundo volte a ser canção barulhenta e intensa, daquela intensidade que eu costumava sentir.
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Creio não saber dizer através de qual ferida esse silêncio tomou conta de mim. Mas aviso: se precisar, me estilhaço inteira.

sexta-feira, abril 04, 2008

Confissão

Já reparou em como qualquer adjetivo benévolo - bonito, carinhoso, amável - passa a tomar forma e obter um nome dito pausadamente, assim, no diminutivo quando amamos? Até mesmo os substantivos como amor, boca e sorriso tornam-se tão característicos da pessoa amada que já não existem coincidências - só destino.
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Nesse estágio, nesse pico, o amor sentido é tão substancioso que cresce em desproporção ao amor recebido. É então que o sentimento ultrapassa todas as camadas de pele do corpo, ultrapassa o tecido, sai pela boca, pelos olhos e ouvidos. Não é suor, mas é salgado, talvez amargo, pois estamos fartos dessa doçura dentro de nós, dessa nobreza, dessa paz.
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Eu, no caso, tenho amor preso na garganta. Eu já não canto: declamo. Os agudos desafinados saem suaves. Também escrevo, compulsivamente. Chega amor nos meus pulsos e músculos, e mãos. Já não posso dizer que sou dona desses suspeitos sorrisos despercebidos, dessa desatenção, desses suspiros. Me aprisiona dentro do peito, meu bem, que eu sou culpada, confesso.

segunda-feira, março 31, 2008

À Espera

Ultimamente, tenho levado horas para dormir e já não sei o que é correto ou se sou capaz de inibir esse amor. Passo a noite a velar esse sentimento indubitável. Não creio precisar de comprimidos, amor não é doença. Você, amor, é um bem imensurável mesmo quando mal me faz. Me cega e descompassa, e, ainda assim, me torna ilimitada.
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A verdade é: me acostumei com você, com seu jeito de ser. Me entorpece com essa independência heródica de mim. Minto se disser que não prefiro assim. Quero-lhe tão bem, urgentemente. Porém indago se desejo-lhe apenas pelo prazer de variar e tornar meus dias corriqueiros e descoloridos um pouco melhores - ou muito melhores. Sou egoísta. Sempre tratei de amor como algo palpável, perecível, um entretenimento qualquer. Coisa de fera ferida? Talvez. O que é o amor senão aquele que fere e jamais cicatriza permanentemente?
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Mas o que há de errado em ser egoísta? Talvez eu lhe ame porque você não precisa de mim. Talvez eu precise mesmo de você, para me fazer querer ser uma pessoa melhor. Talvez milhões de coisas; talvez nenhuma dessas.
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À espera de algo que não sei ao certo o que é, eu permaneço. Madrugada adentro, me perdendo nos lençóis listrados. Com a mesma xícara de café de todas as longas esperas, na janela de todos os outonos, a contar folhas caídas. Mesmo os corações inóspitos necessitam de ritmo e rima - o faça com maestria, meu bem. Deixe os arrependimentos para depois, e vem.

domingo, março 16, 2008

O Salto, por Antonio Prata

A gente não tem como saber se vai dar certo. Talvez, lá adiante, haja uma mesa num restaurante, onde você mexerá o suco com o canudo, enquanto eu quebro uns palitos sobre o prato – pequenas atividades às quais nos dedicaremos com inútil afinco, adiando o momento de dizer o que deve ser dito. Talvez, lá adiante: mas entre o silêncio que pode estar nos esperando então e o presente – você acabou de sair da minha casa, seu cheiro ainda surge vez ou outra pelo quarto –, quem sabe não seremos felizes? Entre a concretude do beijo de cinco minutos atrás e a premonição do canudo girando no copo pode caber uma vida inteira. Ou duas. Passos improvisados de tango e risadas, no corredor do meu apartamento. Uma festa cheia de amigos queridos, celebrando alguma coisa que não saberemos direito o que é, mas que deve ser celebrada. Abraços, borrachudos, a primeira visão de seu necessaire (para que tanto creme, meu Deus?!), respirações ofegantes, camarões, cafunés, banhos de mar – você me agarrando com as pernas e tapando o nariz, enquanto subimos e descemos com as ondas – mãos dadas no cinema, uma poltrona verde e gorda comprada num antiquário, um tatu bola na grama de um sítio, algumas cidades domesticadas sob nossos pés, postais pregados com tachinhas no mural da cozinha e garrafas vazias num canto da área de serviço. Então, numa manhã, enquanto leio o jornal, te verei escovando os dentes e andando pela casa, dessa maneira aplicada e displicente que você tem de escovar os dentes e andar ao mesmo tempo e saberei, com a grandiosa certeza que surge das pequenas descobertas, que sou feliz. Talvez, céus nublados e pancadas esparsas nos esperem mais adiante. Silêncios onde deveria haver palavras, palavras onde poderia haver carinho, batidas de frente, gritos até. Depois faremos as pazes. Ou não? Tudo que sabemos agora é que eu te quero, você me quer e temos todo o tempo e o espaço diante de nossos narizes para fazer disso o melhor que pudermos. Se tivermos cuidado e sorte – sobretudo, talvez, sorte – quem sabe, dê certo? Não é fácil. Tampouco impossível. E se existe essa centelha quase palpável, essa esperança intensa que chamamos de amor, então não há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborrachemos. Talvez saiamos voando. Não temos como saber se vai dar certo – o verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão –, mas a vida não tem nenhum sentido se não for para dar o salto.

sexta-feira, março 14, 2008

Almost

Foram incontáveis quase-romances, quase-poemas, quase-canções... Até hoje. A minha perturbação emerge desses tantos "por poucos". Dessa ausência de "porquês". Desencontros, desencontros.
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E o que seria de mim sem o Chico, a Elis e o Tom? E o que seriam dessas sextas-feiras descoloridas sem o entardecer nostálgico? O que seria da minha estafa sem a mesa bamba para apoiar os cotovelos? Quem arrancaria meus sorrisos plenos se não fosse o dono do par de tênis sujos brincando com meus pés debaixo da mesa?
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Não haveria plenitude nem pluralidade nos meus dias corriqueiros se não fossem as piadas velhas, os encontros casuais e todos aqueles planos banais. "Dessa vez, me leva contigo". Ainda que me incomodem os murmúrios e as respostas nebulosas, aprecio a instabilidade. Invejo quem a tem, quem é dela serviçal. Sou herdeira da monotonia, do verbalizado, do fadigoso.
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Contudo, comigo não há meio-termo. Escrevo nas entrelinhas e envio mensagens - extraviadas. Fabrico ilusões e fantasias para todos os gostos e bolsos. Parcelo-me, também. Tenha-me inteiramente de uma só vez, pague aos poucos. Não anime-se: gosto de reciprocidade. A condição é uma só: não aceito devoluções.
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Oito ou oitenta, amigo.

domingo, fevereiro 10, 2008

Getting Closer

Amor. O que é amor para você? O que pode chegar perto de ser? Amor não é algo que se retribua de imediato, só para ser gentil. Amor, com base em sua vaga experiência, é ansear por saber todos os detalhes que ela, normalmente, não saberia. Conhecer a marca da pasta de dente, do shampoo, do perfume... Questões de Publicidade. Conhecer o cardápio e como ela gosta do suco batido com a casca... Questões de Gastronomia. Conhecer os livros que lê, os filmes que assiste e o caderno onde tudo está datado... Questões de Jornalismo. Conhecer o gosto pelos cantos perpendiculares, pelas salas grandes e vazias, pelas portas abertas... Questões de Arquitetura. Conhecer os museus que visita, a história preferida e bendita... Questões de Museologia.
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Provar do beijo e da luta. Provar das tardes que a faltam. Provar que ela o merece.... Que nunca a esquece, que chegou para ficar. Provar que enquanto ela sobrevivia, você com ela sonhava e, ainda que sem conhecê-la, a esperava chegar.
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Ela cansou de correr. De plantar e nunca colher. Ela quer uma vida modesta, vezenquando uma festa para você não se entediar. Quer tê-lo em casa e assim, um motivo para casa voltar. Ela sempre amou a cidade em que viveu; foi a cidade que dela se esqueceu.
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Se depois de tudo que leu o medo ainda for o melhor companheiro seu, conclua: tê-la conhecido foi um grande erro. She's bad news. Depois siga toda vida com a limitação de quem não sabe se perder para encontrar o que ainda não fora descoberto.
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Na vida dela houveram momentos em que ela poderia ter feito algo mais. Quando o conheceu se deu conta de que não o desejava para ser mais um destes momentos. E você, o que ela é para você? O que pode chegar perto de ser?

É tão estranho. Devemos ter passado um pelo outro milhares de vezes. Ou não. Eu nunca passei por você... Eu teria parado. Eu teria parado, sim. Eu jamais continuaria andando.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Tarô

Caminhava sozinha na madrugada do primeiro dia de 2008 quando pisou em um pedaço sujo de papel, lado inverso de um desses panfletos pregados nos postes da cidade. Panfleto esse insistente, já que não desgrudava da sola de seu pé descalço. Na calçada sentou-se e tomou aquele insignificante pedaço de papel para si - costuma encaixotar momentos. Da bolsa tirou a caneta do ano passado, e tentou escrever sentimentos, imagens.
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"Fogos explodem no manto negro do céu, em uma constelação de estrelas. Enchem minha face pálida e minha alma descolorida de alegria. A multidão pula, dança e canta. O branco impera. Risos escandalosos e palavras cordiais são a trilha sonora que pode ser ouvida daqui, da beira da estrada.
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Ela, aquela mesma de todos os anos novos e velhos, fecha os olhos e beija a palma das mãos com o zêlo e o carinho de quem tem muito amor para dar. Então promete para si mesma: 'Vou cuidar de você. Ninguém levará pedaços tão bonitos de você novamente, no more souvenirs'.
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Nada mais de conflitos internos, de crises existenciais. Nada mais de wasted tears, wasted years. Nada mais desse corpinho de dezesseis com essa antipatia de setenta e três. Nada mais de procura, de espera, de stalking.
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A vida é tão intensa, tão imensa; ora, pare de lamentar. A vida é essa infinita highway. Não é algo que se compre, que se possa barganhar. E finalmente ela percebe: sua procura, por si só, já é o que ela quer encontrar - quando alguém chamar seu nome".
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Guardou a caneta. Ao dobrar o papel notou no canto direito da propaganda de um tarô, letras grandes em tom de lilás: "O destino está à espera!". Sorriu um daqueles sorrisos incrédulos e calçou suas havaianas anatômicas. Nada mais cruzou seu caminho desde então.
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Quanto ao futuro, não façamos reservas.

sábado, fevereiro 02, 2008

Não é amor

Me desnude. Me tire do sério. Bagunce o meu lençol de menina, o meu senso desatina. Me provoque. Decore cada traço meu, é tudo seu. Me divirta. Me ame e admita. Me amanheça, me entardeça, me anoiteça. Me roube a castidade. Não tenho problemas em expor a vaidade enquanto o que eu calar for a verdade. Me ligue. Sinta saudades. Diga que já não vê a hora. Venha sem demora. Me careça. Me enlouqueça. Toque que eu danço, peça que eu canto. Faça do ontem o dia pior. Você não é amor, é melhor.


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"Eu ainda me lembro bem: teus dedos perguntavam para minha blusa, se meu corpo acolheria um delinqüente".

domingo, novembro 25, 2007

Into Me

Algumas poucas vezes, como hoje, passo boa parte de uma noite mal iluminada na varanda, encarando tudo que já fui um dia. É algo involuntário. O que chamamos de coincidência surge e uma música preenche o espaço vazio de outrora, no meio do turbilhão que eu construi para me ocupar. Não posso dizer que é saudade, porque não quero de volta - mesmo que volte por boa vontade.
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Talvez eu devesse resumir o meu pensamento àquelas folhas avulsas em branco sobre a mesa. Mas não há do que fugir ou lamentar. Hoje sei que nunca houve. Contudo, o acústico dessa música de duas histórias - uma minha, outra dele - tem a beleza do ontem, e do ontem a inércia. Gosto de ficar lá, com aquele céu de lágrimas que não quer chover. Porque também somos o que perdemos.
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E então eu volto. Volto para quem me tem agora, por merecimento de procurar e direito de esconder. Volto também por merecer essa reciprocidade de amor, de valor, de cuidado. Mas sempre volto com a sensação de ter me afogado na xícara de chá, ou me jogado telhado abaixo. É aí que eu sempre acordo, com beijos e braços exaustos de me carregarem por todos os meus abismos, de volta para casa.
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Tied up and twisted, the way I'd like to be
For you, for me, come crash into me, baby

domingo, novembro 18, 2007

Saudade, um beijo

Primeiramente, peço perdão aos meus devaneios pela ausência. O mundo "real" tem levado de mim todo o meu tempo disponível. É verdade, admito, que passei a confiar e preferir caneta e papel. Prefiro, também, acreditar no que é passível de se concretizar - mesmo aqui, além dos muros.
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Ah, não escondo o meu desejo de voltar. Minha profissão, de uns tempos para cá, tem sido escutar as lamentações, os aprendizados e a minuciosa descrição da vida de quem já viu de tudo neste mundo - ou, pelo menos, pensa assim.
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Mas estou aqui tagarelando, na tentativa desesperada de descrever esses últimos meses. Falando aleatoriamente? "Aprecio a idéia dessas adoráveis surpresas no final da noite", e sweet drems. Mas basta. O resto fica para depois, para o espaço que sobrar.
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Encarando o doloroso arquivo deste embobrecido e abandonado blog, me deparei com um texto escrito há algum tempo, mas não publicado. O fato foi de uma estranheza aguda, afinal, os textos mal escritos, mal editados e até mesmo aqueles que desnudam excessivamente a minha pessoa, são deletados. Me apavoram esses textos em que o pensamento se perde para todo sempre, esses textos interminados. Porém, ao terminar de ler tal raridade, ficou suficientemente claro o motivo do ceticismo no publicar. Surgiu-me, então, que esse texto não me pertence, não mais. É por isso que o liberto, para que se encaixe em quem o encontre, já não me importa quem seja.
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Dias sim, dias não
Desfiz o que há por dentro e deixei a paisagem correr. Perguntei a toda pouca sensatez que já tive um dia "Esqueci? Posso enfim...?". Ela me deixou nessa reticência, me refiz quase inteira. O sol atravessava a janela, acolhedor; fechei os olhos por um instante, em completa entrega.

Me senti confortável no terceiro banco do lado direito de todos os dias, e suspirei longamente, tão orgulhosa e satisfeita. O tempo traz milhões de coisas, mas também leva. Ah, que menina tola. Pensei tanto em como esquecer que, num dia como outro qualquer, "Não é tanto, não dói mais.".

De pensar que eu quase abandonei os tabuleiros quando ele me pediu para deixar de lado. É isso que eu faço, eu transformo quem amo no que eu preciso. Nem que seja para deixar na estante, ao lado dos livros que o tempo cobre de pó.

Posso enfim continuar - e vou.
Não te amo mais, adeus.

domingo, novembro 11, 2007

Seja o que for.
Mas seja inteiro, e seja o seu melhor.

domingo, novembro 04, 2007

Bilhete

Precisava escrever algo que traduzisse poeticamente o que faz sua pulsação acelerada quase gangrenar a ponta de seus dedos. Precisava fazê-lo em cinco minutos. Três agora. Apenas dois, então.
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Viver leva tempo. Cansada estava dessa vida tão heavy, dessa falta de temática e opinião. Cansada da morte certa e da vida desperdiçada. E não pense em voltar para corrigir o que já foi dito.
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Satisfação é a nova felicidade. Viver é uma questão moral. E pronto. Se sua vida dependesse destes cinco minutos, bom, você teria que ligar para a família e os amigos, depois funerária e floricultura. Dois minutos atrasada, ela disse muito e nada do que queria dizer.
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Tentaremos novamente, claro. Não se apegue ao teclado, ou aos dedos gangrenados. Não se apegue a nada que não puder largar em trinta segundos. Eis um novo desafio.
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Façamos assim:
Hoje anseava por dizer, que fez as unhas só para te receber. Que tomou chuva e alguma dose de coragem só para fazê-lo compreender, que ela o ama demais para deixá-lo se arrepender.

domingo, outubro 14, 2007

31 Dias

Eu gosto de assistir noticiários,
De cafés filosóficos ou literários,
De coleções em ordem alfabética,
Do original, do civilizado, da ética.

Prefiro o frio ao quente, e o fervendo ao morno,
Prefiro chá de limão, e os teus braços em torno,
Prefiro a correria que a solidão, e a falta de atenção
Prefiro planejar um mês antes o feriadão.

Eu não gosto de beringela ou sapato apertado,
De quando abrem as cortinas sem eu ter acordado,
Não gosto de criaturas efusivas e desinibidas,
De chuva nos óculos e despedidas.

E mesmo correndo o risco,
De ser o parecer desse rabisco,
Recebi um dos seus poemas desestruturais,
31 dias serão infernais, te quero logo e sempre mais.

domingo, setembro 30, 2007

Do que passou, e calou

Chegou em casa por volta das sete horas da noite, sem sentir os pés. Ah, as pernas tão subestimadas a trouxeram para casa sã e salva, sem tropeçar nas pessoas ou pisar em poças d'água. Chegou com aquele cheiro de shopping, conhece? Aquele cheiro, aquele misto de fast food, café expresso com chantilly, ar condicionado e centenas de fragrâncias de perfumes, shampoos e desodorantes. E esse incômodo, nem o alívio de em casa chegar, nem o sofá acolhedor, nem o orgulho dos pés inchados é capaz de silenciar.
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Mas comecemos do início e vamos logo ao motivo da vida tê-la levado às multidões dos shoppings - o que não é um de seus maiores prazeres, para não dizer que é o menor. Precisava comemorar-se, eis a verdade. Não sentia tal necessidade, mas do mesmo modo como somos sociáveis quando não queremos ser, acabou por achar necessário. Comemorar-se. Mais um ano de altos e baixos, de picos, de beira de estrada, de escadaria de igreja. Mais um ano que faz dela a inconstância que esta boa moça é. "Está adiantada", um conhecido diria. Mas resolveu comemorar-se antecipadamente, com o objetivo de passar a data em branco sem parecer completamente infeliz consigo. Começar a segunda-feira como uma segunda-feria qualquer, de costas largas e ombros baixos. Começar o primeiro dia de sua vida, como um primeiro dia de mês; dia de pagar contas, de receber o salário e ver o mesmo sumir com a fila do banco.
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E foi. Sem o salto alto costumeiro, sem roupas sofisticadas. Jogou em si o velho jeans e o desbotado agasalho, e foi. Deveria ter chamado os poucos e bons amigos, os pais e a irmã que fosse, mas não; optou por cadeiras vazias e o Rilke que ganhou de presente. Cansou da falta de distração e de observar desconhecidos, assistiu um filme. Depois foi comprar seu presente, sem grandes expectativas. Seguindo o fluxo, às vezes na contra-mão pelo prazer de variar. Caminhando sutilmente, era um tanto de ambições, algumas lembranças e um dedo de tédio - um devaneio solto.
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"Talvez seja o sábado", justificou. Particularmente, ela odeia os sábados. É este o dia de pendurar no cabide todo o cansaço que a semana proporcionou, o dia do intervalo na correria, de perder-se propositalmente. Ah, a felicidade barata de um sábado. Quão cínica és tu.
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E, finalmente, mais um ano. Você, positivista, deve pensar "pobre mulher". Mas compreenda, ela aprendeu a duras penas que os anos ensinam coisas que os dias desconhecem. E, sem vontade de se encaixar no comum, no previsível, segue esta vida na contra-mão. Deseja comemorar-se, deseja essa atenção todos os dias do ano. Deus queira que nessa volta aos trilhos, tal dádiva seja concebida. E devidamente desfrutada.
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Voltemos ao final do começo. Do arrependimento de ter saído porta afora. Mas ao voltar, ao retornar pôde perceber que o que era merecidamente seu, por posse e direito, por ter compartilhado os melhores anos de sua vida, havia se libertado. Havia, sim, uma Gabriela no futuro do seu sempre amado e querido - e ainda assim, quase esquecido -, no seu forever and after, mas ao voltar-se para quem ela não soube cuidar, percebeu que esse nome mudara de endereço, e sobrenome. Encerrou este ano com uma dor profunda de perda perdida para sempre, belos lábios e poucas palavras.
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E o que virá, dirá.

domingo, setembro 23, 2007

Pormenores

Tanto homens quanto mulheres são mais felizes na guerra. Mesmo que seja uma guerra sem herói e sem causa, sem destino. É esta verdade que nos faz pelejar com a força de dez mil guerrilheiros por qualquer pequeno amor que seja. Consciente da morte ou da vida que possam ser encontradas ao fim de tal empreitada. Perguntam-me se a vida é maior que a morte, quando a única certeza é que o amor é maior que os dois.

Se quem chegou, partiu. Se quem virá, já foi. Só para quem fica os dias são todos iguais. E lágrimas fogem de ti; e lágrimas fogem de mim. E um rio se forma de nós. Se a vida é uma longa espera, então ensina-me a te esperar. Se a vida é breve primavera, deixe-me dela beber... E já.

Os enérgicos dias andam se entrepondo em nossas vidas, há muito tempo. O nosso ontem é tardio. O nosso hoje é muito pouco. E o nosso amanhã, ninguém sabe.

Eu quero te dizer que nada lamento. Se eu pudesse viveria tudo contigo outra vez - o nosso tudo sem pausa e sem nome - da maneira que foi. Porque da maneira que poderia ter sido, jamais saberemos.

domingo, setembro 16, 2007

Do you like me now?

Há uma filosofia nas poesias de todos os séculos, nas músicas, nos embriagados. Há em tudo que sente, uma filosofia, uma crença. Há uma crença, eu espero, na descrença dos céticos.
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Cínica, eu procuro ler e em mesmo tom escrever curtos parágrafos que instiguem à você, meu caro alguém. E nesses rabiscos avulsos eu procuro, plena de todo meu conhecimento em seu sentimento adormecido, abusar das figuras de lingüagem e da sinestesia. Que fique encoberto, não o faço para tornar explícita a minha verdade, como o bem de me supliciar que ela faz.
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Submersa na dor de um pseudônimo - que divide o meu reflexo em dois, enquanto eu escolho quem eu quero ser por hoje, e amanhã é depois. E se eu quisera este nome, tuberculoso e pungente, para que o faça refletir em suas lamentações matutinas, minha alma estará salva destes deuses capitalistas. Pois o farei, despretensiosa quanto ao resultado, ver que o seu fardo comparado ao meu é ridiculamente ínfimo. E nesse vereda de luz efêmera, você dará o valor subestimado à sua desprezível vida de alienado à uma era em que se come ouro no jantar.
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O meu propósito? É fazer você gostar de mim, certo de sua piedade e satisfação; quando eu, intencionalmente, não sou essa jovem escritora decadente coberta de limbo. Quando, na verdade, eu sou passos em sintonia com o resto do mundo, caminhando pela Oscar Freire. De Chanel e rímel.
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A minha crença, turva e vil, é na desconfiança desse mundo, e como você já deveria saber, na languidez da Verdade.

sexta-feira, setembro 07, 2007

Cafés Alados

Parou na esquina da correria, descompassada. No balcão da cafeteria, tirou da bolsa o livro mais novo e "Cinco Minutos, só cinco minutos". Apoiava-se sobre uma das pernas, pendendo de um lado para o outro, cotovelos na borda do mármore, estava exausta. Preferiu sentar-se e esquecer-se do inconveniente relógio sob a malha fria da blusa branca de mangas longas. Na mesma inerte mesa rústica de todos os fatídicos dias, uma cadeira vaga. Sentia-se triste; uma tristeza acolhedora, dessas dos dias nublados, guardada no armário com os casacos semi-novos.
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Observava absorta os faróis dos carros dobrando a esquina, enquanto o escurecer carregava uma garoa fina. Cheiro de chuva, de poeira assentada aos poucos, e o som dos pneus acelerados sobre o asfalto embriagado.
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Estava à espera. De um passado, de um futuro, não há como saber. Esperava ansiosamente um presente dos deuses de tudo que existe, uma reorganização do universo à seu favor. Mas não. Uma hora e cinco minutos desencontrada por si mesma. Sobre a mesa, uma xícara de café pela metade e um croissant rejeitado. Pegou o celular, levou-o até a orelha, mas só ouviu o doloroso som da linha desocupada há meses.
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"Longe daqui, tarde demais. Nunca talvez!", e levantou-se bruscamente. Dirigiu-se ao caixa, insatisfeita, incomodada. Algo faltava pesando no ombro esquerdo, seria um abraço, seria... "A bolsa!". Atravessou a cafeteria correndo, já imaginando o prejuízo, delegacia às 20h da noite, funcionários grosseiros...
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Chegando à mesa, o chão ameaçou ceder. Pernas trêmulas, ardência nos olhos e no nariz seguida de lágrimas silenciosas. Sobre a mesa a bolsa estava, intocada. Uma cadeira estava ocupada pelo presente, ausente em tempos de contemplativas vagas visões, mas agora, justo agora, ali. Olhares segredantes e o céu abre-se em sorrisos tortos.
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- De todas as pessoas no mundo, eu não esperava por você.
- É, cheguei três anos atrasado - ele sorri timidamente.
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Ela aproxima-se, avariada.
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- Senta, pequena, toma um café comigo.

terça-feira, setembro 04, 2007

Alma Inquieta


I

Noite ainda, quando ela me pedia
Entre dois beijos que me fosse embora,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

"Espera ao menos que desaponte a aurora!
Tua alcova é cheirosa como um ninho...
E olha que escuridão há lá por fora!

Como queres que eu vá, triste e sozinho,
Casando a treva e o frio de meu peito
Ao frio e à treva que há pelo caminho?!

Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!
Não me arrojes à chuva e à tempestade!
Não me exiles do vale do teu leito!

Morrerei de aflição e de saudade...
Espera! até que o dia resplandeça,
Aquece-me com a tua mocidade!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava...
Espera um pouco! deixa que amanheça!"

- E ela abria-me os braços. E eu ficava.


II

E, já manhã, quando ela me pedia
Que de seu claro corpo me afastasse,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

"Não pode ser! não vês que o dia nasce?
A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta...
Que diria de ti quem me encontrasse?

Ah! nem me digas que isso pouco importa!...
Que pensariam vendo me apressado.
Tão cedo assim, saindo a tua porta.

Vendo me exausto, pálido, cansado,
E todo pelo aroma de teu beijo
Escandalosamente perfumado?

O amor, querida, não exclui o pejo...
Espera! até que o sol desapareça,
Beija-me a boca! mata-me o desejo!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava!
Espera um pouco! deixa que anoiteça!

- E ela abria-me os braços. E eu ficava.


Olavo Bilac. In: Poesias.


Um dia desses amanheceu.
Uma garoa fina, silenciosa,
Ela partiu.

- Guardando abraços,
e o borrão de café na camisola.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Sweeter

Não há felicidade maior. Um flerte, uns olhares traiçoeiros, uns sorrisos despercebidos.
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A Sra. das Peripécias Desimportantes me buscou, tarde da noite. Na garagem, desligou o carro e iniciou um quase monólogo. Não pude ouvir, não conseguia ouvir uma só palavra claramente. Observava suas mãos, gesticulava muito, aumentava o tom da voz. Eu balançava a cabeça em reprovação a cada pausa que ela fazia, como se esperasse uma resposta. Não foi proposital, tentava me concentrar mas não podia, estava em outro lugar.
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Sorri um desses sorrisos despercebidos relembrando aquela tal conversa recheada de malícia e segundas intenções. Mentes perigosas. Ela parou de gesticular, nem movia-se, inacreditando naquele sorriso de canto de boca, afinal, o assunto era seríssimo (?!).
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E novamente o silêncio me faz descer das nuvens. Fico assim, inteiramente satisfeita com o pouco que você me deixa - porque mal me larga e já me agarra. Fico aqui, ou ali sozinha no carro, guardando cada você comigo, para outro encontro logo mais.
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"Você não deveria ser a substituta de ninguém, menina."
Àquele, que não sabe a felicidade que me traz.