domingo, fevereiro 10, 2008

Getting Closer

Amor. O que é amor para você? O que pode chegar perto de ser? Amor não é algo que se retribua de imediato, só para ser gentil. Amor, com base em sua vaga experiência, é ansear por saber todos os detalhes que ela, normalmente, não saberia. Conhecer a marca da pasta de dente, do shampoo, do perfume... Questões de Publicidade. Conhecer o cardápio e como ela gosta do suco batido com a casca... Questões de Gastronomia. Conhecer os livros que lê, os filmes que assiste e o caderno onde tudo está datado... Questões de Jornalismo. Conhecer o gosto pelos cantos perpendiculares, pelas salas grandes e vazias, pelas portas abertas... Questões de Arquitetura. Conhecer os museus que visita, a história preferida e bendita... Questões de Museologia.
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Provar do beijo e da luta. Provar das tardes que a faltam. Provar que ela o merece.... Que nunca a esquece, que chegou para ficar. Provar que enquanto ela sobrevivia, você com ela sonhava e, ainda que sem conhecê-la, a esperava chegar.
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Ela cansou de correr. De plantar e nunca colher. Ela quer uma vida modesta, vezenquando uma festa para você não se entediar. Quer tê-lo em casa e assim, um motivo para casa voltar. Ela sempre amou a cidade em que viveu; foi a cidade que dela se esqueceu.
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Se depois de tudo que leu o medo ainda for o melhor companheiro seu, conclua: tê-la conhecido foi um grande erro. She's bad news. Depois siga toda vida com a limitação de quem não sabe se perder para encontrar o que ainda não fora descoberto.
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Na vida dela houveram momentos em que ela poderia ter feito algo mais. Quando o conheceu se deu conta de que não o desejava para ser mais um destes momentos. E você, o que ela é para você? O que pode chegar perto de ser?

É tão estranho. Devemos ter passado um pelo outro milhares de vezes. Ou não. Eu nunca passei por você... Eu teria parado. Eu teria parado, sim. Eu jamais continuaria andando.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Tarô

Caminhava sozinha na madrugada do primeiro dia de 2008 quando pisou em um pedaço sujo de papel, lado inverso de um desses panfletos pregados nos postes da cidade. Panfleto esse insistente, já que não desgrudava da sola de seu pé descalço. Na calçada sentou-se e tomou aquele insignificante pedaço de papel para si - costuma encaixotar momentos. Da bolsa tirou a caneta do ano passado, e tentou escrever sentimentos, imagens.
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"Fogos explodem no manto negro do céu, em uma constelação de estrelas. Enchem minha face pálida e minha alma descolorida de alegria. A multidão pula, dança e canta. O branco impera. Risos escandalosos e palavras cordiais são a trilha sonora que pode ser ouvida daqui, da beira da estrada.
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Ela, aquela mesma de todos os anos novos e velhos, fecha os olhos e beija a palma das mãos com o zêlo e o carinho de quem tem muito amor para dar. Então promete para si mesma: 'Vou cuidar de você. Ninguém levará pedaços tão bonitos de você novamente, no more souvenirs'.
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Nada mais de conflitos internos, de crises existenciais. Nada mais de wasted tears, wasted years. Nada mais desse corpinho de dezesseis com essa antipatia de setenta e três. Nada mais de procura, de espera, de stalking.
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A vida é tão intensa, tão imensa; ora, pare de lamentar. A vida é essa infinita highway. Não é algo que se compre, que se possa barganhar. E finalmente ela percebe: sua procura, por si só, já é o que ela quer encontrar - quando alguém chamar seu nome".
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Guardou a caneta. Ao dobrar o papel notou no canto direito da propaganda de um tarô, letras grandes em tom de lilás: "O destino está à espera!". Sorriu um daqueles sorrisos incrédulos e calçou suas havaianas anatômicas. Nada mais cruzou seu caminho desde então.
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Quanto ao futuro, não façamos reservas.

sábado, fevereiro 02, 2008

Não é amor

Me desnude. Me tire do sério. Bagunce o meu lençol de menina, o meu senso desatina. Me provoque. Decore cada traço meu, é tudo seu. Me divirta. Me ame e admita. Me amanheça, me entardeça, me anoiteça. Me roube a castidade. Não tenho problemas em expor a vaidade enquanto o que eu calar for a verdade. Me ligue. Sinta saudades. Diga que já não vê a hora. Venha sem demora. Me careça. Me enlouqueça. Toque que eu danço, peça que eu canto. Faça do ontem o dia pior. Você não é amor, é melhor.


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"Eu ainda me lembro bem: teus dedos perguntavam para minha blusa, se meu corpo acolheria um delinqüente".

domingo, novembro 25, 2007

Into Me

Algumas poucas vezes, como hoje, passo boa parte de uma noite mal iluminada na varanda, encarando tudo que já fui um dia. É algo involuntário. O que chamamos de coincidência surge e uma música preenche o espaço vazio de outrora, no meio do turbilhão que eu construi para me ocupar. Não posso dizer que é saudade, porque não quero de volta - mesmo que volte por boa vontade.
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Talvez eu devesse resumir o meu pensamento àquelas folhas avulsas em branco sobre a mesa. Mas não há do que fugir ou lamentar. Hoje sei que nunca houve. Contudo, o acústico dessa música de duas histórias - uma minha, outra dele - tem a beleza do ontem, e do ontem a inércia. Gosto de ficar lá, com aquele céu de lágrimas que não quer chover. Porque também somos o que perdemos.
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E então eu volto. Volto para quem me tem agora, por merecimento de procurar e direito de esconder. Volto também por merecer essa reciprocidade de amor, de valor, de cuidado. Mas sempre volto com a sensação de ter me afogado na xícara de chá, ou me jogado telhado abaixo. É aí que eu sempre acordo, com beijos e braços exaustos de me carregarem por todos os meus abismos, de volta para casa.
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Tied up and twisted, the way I'd like to be
For you, for me, come crash into me, baby

domingo, novembro 18, 2007

Saudade, um beijo

Primeiramente, peço perdão aos meus devaneios pela ausência. O mundo "real" tem levado de mim todo o meu tempo disponível. É verdade, admito, que passei a confiar e preferir caneta e papel. Prefiro, também, acreditar no que é passível de se concretizar - mesmo aqui, além dos muros.
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Ah, não escondo o meu desejo de voltar. Minha profissão, de uns tempos para cá, tem sido escutar as lamentações, os aprendizados e a minuciosa descrição da vida de quem já viu de tudo neste mundo - ou, pelo menos, pensa assim.
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Mas estou aqui tagarelando, na tentativa desesperada de descrever esses últimos meses. Falando aleatoriamente? "Aprecio a idéia dessas adoráveis surpresas no final da noite", e sweet drems. Mas basta. O resto fica para depois, para o espaço que sobrar.
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Encarando o doloroso arquivo deste embobrecido e abandonado blog, me deparei com um texto escrito há algum tempo, mas não publicado. O fato foi de uma estranheza aguda, afinal, os textos mal escritos, mal editados e até mesmo aqueles que desnudam excessivamente a minha pessoa, são deletados. Me apavoram esses textos em que o pensamento se perde para todo sempre, esses textos interminados. Porém, ao terminar de ler tal raridade, ficou suficientemente claro o motivo do ceticismo no publicar. Surgiu-me, então, que esse texto não me pertence, não mais. É por isso que o liberto, para que se encaixe em quem o encontre, já não me importa quem seja.
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Dias sim, dias não
Desfiz o que há por dentro e deixei a paisagem correr. Perguntei a toda pouca sensatez que já tive um dia "Esqueci? Posso enfim...?". Ela me deixou nessa reticência, me refiz quase inteira. O sol atravessava a janela, acolhedor; fechei os olhos por um instante, em completa entrega.

Me senti confortável no terceiro banco do lado direito de todos os dias, e suspirei longamente, tão orgulhosa e satisfeita. O tempo traz milhões de coisas, mas também leva. Ah, que menina tola. Pensei tanto em como esquecer que, num dia como outro qualquer, "Não é tanto, não dói mais.".

De pensar que eu quase abandonei os tabuleiros quando ele me pediu para deixar de lado. É isso que eu faço, eu transformo quem amo no que eu preciso. Nem que seja para deixar na estante, ao lado dos livros que o tempo cobre de pó.

Posso enfim continuar - e vou.
Não te amo mais, adeus.

domingo, novembro 11, 2007

Seja o que for.
Mas seja inteiro, e seja o seu melhor.

domingo, novembro 04, 2007

Bilhete

Precisava escrever algo que traduzisse poeticamente o que faz sua pulsação acelerada quase gangrenar a ponta de seus dedos. Precisava fazê-lo em cinco minutos. Três agora. Apenas dois, então.
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Viver leva tempo. Cansada estava dessa vida tão heavy, dessa falta de temática e opinião. Cansada da morte certa e da vida desperdiçada. E não pense em voltar para corrigir o que já foi dito.
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Satisfação é a nova felicidade. Viver é uma questão moral. E pronto. Se sua vida dependesse destes cinco minutos, bom, você teria que ligar para a família e os amigos, depois funerária e floricultura. Dois minutos atrasada, ela disse muito e nada do que queria dizer.
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Tentaremos novamente, claro. Não se apegue ao teclado, ou aos dedos gangrenados. Não se apegue a nada que não puder largar em trinta segundos. Eis um novo desafio.
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Façamos assim:
Hoje anseava por dizer, que fez as unhas só para te receber. Que tomou chuva e alguma dose de coragem só para fazê-lo compreender, que ela o ama demais para deixá-lo se arrepender.

domingo, outubro 14, 2007

31 Dias

Eu gosto de assistir noticiários,
De cafés filosóficos ou literários,
De coleções em ordem alfabética,
Do original, do civilizado, da ética.

Prefiro o frio ao quente, e o fervendo ao morno,
Prefiro chá de limão, e os teus braços em torno,
Prefiro a correria que a solidão, e a falta de atenção
Prefiro planejar um mês antes o feriadão.

Eu não gosto de beringela ou sapato apertado,
De quando abrem as cortinas sem eu ter acordado,
Não gosto de criaturas efusivas e desinibidas,
De chuva nos óculos e despedidas.

E mesmo correndo o risco,
De ser o parecer desse rabisco,
Recebi um dos seus poemas desestruturais,
31 dias serão infernais, te quero logo e sempre mais.

domingo, setembro 30, 2007

Do que passou, e calou

Chegou em casa por volta das sete horas da noite, sem sentir os pés. Ah, as pernas tão subestimadas a trouxeram para casa sã e salva, sem tropeçar nas pessoas ou pisar em poças d'água. Chegou com aquele cheiro de shopping, conhece? Aquele cheiro, aquele misto de fast food, café expresso com chantilly, ar condicionado e centenas de fragrâncias de perfumes, shampoos e desodorantes. E esse incômodo, nem o alívio de em casa chegar, nem o sofá acolhedor, nem o orgulho dos pés inchados é capaz de silenciar.
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Mas comecemos do início e vamos logo ao motivo da vida tê-la levado às multidões dos shoppings - o que não é um de seus maiores prazeres, para não dizer que é o menor. Precisava comemorar-se, eis a verdade. Não sentia tal necessidade, mas do mesmo modo como somos sociáveis quando não queremos ser, acabou por achar necessário. Comemorar-se. Mais um ano de altos e baixos, de picos, de beira de estrada, de escadaria de igreja. Mais um ano que faz dela a inconstância que esta boa moça é. "Está adiantada", um conhecido diria. Mas resolveu comemorar-se antecipadamente, com o objetivo de passar a data em branco sem parecer completamente infeliz consigo. Começar a segunda-feira como uma segunda-feria qualquer, de costas largas e ombros baixos. Começar o primeiro dia de sua vida, como um primeiro dia de mês; dia de pagar contas, de receber o salário e ver o mesmo sumir com a fila do banco.
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E foi. Sem o salto alto costumeiro, sem roupas sofisticadas. Jogou em si o velho jeans e o desbotado agasalho, e foi. Deveria ter chamado os poucos e bons amigos, os pais e a irmã que fosse, mas não; optou por cadeiras vazias e o Rilke que ganhou de presente. Cansou da falta de distração e de observar desconhecidos, assistiu um filme. Depois foi comprar seu presente, sem grandes expectativas. Seguindo o fluxo, às vezes na contra-mão pelo prazer de variar. Caminhando sutilmente, era um tanto de ambições, algumas lembranças e um dedo de tédio - um devaneio solto.
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"Talvez seja o sábado", justificou. Particularmente, ela odeia os sábados. É este o dia de pendurar no cabide todo o cansaço que a semana proporcionou, o dia do intervalo na correria, de perder-se propositalmente. Ah, a felicidade barata de um sábado. Quão cínica és tu.
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E, finalmente, mais um ano. Você, positivista, deve pensar "pobre mulher". Mas compreenda, ela aprendeu a duras penas que os anos ensinam coisas que os dias desconhecem. E, sem vontade de se encaixar no comum, no previsível, segue esta vida na contra-mão. Deseja comemorar-se, deseja essa atenção todos os dias do ano. Deus queira que nessa volta aos trilhos, tal dádiva seja concebida. E devidamente desfrutada.
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Voltemos ao final do começo. Do arrependimento de ter saído porta afora. Mas ao voltar, ao retornar pôde perceber que o que era merecidamente seu, por posse e direito, por ter compartilhado os melhores anos de sua vida, havia se libertado. Havia, sim, uma Gabriela no futuro do seu sempre amado e querido - e ainda assim, quase esquecido -, no seu forever and after, mas ao voltar-se para quem ela não soube cuidar, percebeu que esse nome mudara de endereço, e sobrenome. Encerrou este ano com uma dor profunda de perda perdida para sempre, belos lábios e poucas palavras.
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E o que virá, dirá.

domingo, setembro 23, 2007

Pormenores

Tanto homens quanto mulheres são mais felizes na guerra. Mesmo que seja uma guerra sem herói e sem causa, sem destino. É esta verdade que nos faz pelejar com a força de dez mil guerrilheiros por qualquer pequeno amor que seja. Consciente da morte ou da vida que possam ser encontradas ao fim de tal empreitada. Perguntam-me se a vida é maior que a morte, quando a única certeza é que o amor é maior que os dois.

Se quem chegou, partiu. Se quem virá, já foi. Só para quem fica os dias são todos iguais. E lágrimas fogem de ti; e lágrimas fogem de mim. E um rio se forma de nós. Se a vida é uma longa espera, então ensina-me a te esperar. Se a vida é breve primavera, deixe-me dela beber... E já.

Os enérgicos dias andam se entrepondo em nossas vidas, há muito tempo. O nosso ontem é tardio. O nosso hoje é muito pouco. E o nosso amanhã, ninguém sabe.

Eu quero te dizer que nada lamento. Se eu pudesse viveria tudo contigo outra vez - o nosso tudo sem pausa e sem nome - da maneira que foi. Porque da maneira que poderia ter sido, jamais saberemos.

domingo, setembro 16, 2007

Do you like me now?

Há uma filosofia nas poesias de todos os séculos, nas músicas, nos embriagados. Há em tudo que sente, uma filosofia, uma crença. Há uma crença, eu espero, na descrença dos céticos.
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Cínica, eu procuro ler e em mesmo tom escrever curtos parágrafos que instiguem à você, meu caro alguém. E nesses rabiscos avulsos eu procuro, plena de todo meu conhecimento em seu sentimento adormecido, abusar das figuras de lingüagem e da sinestesia. Que fique encoberto, não o faço para tornar explícita a minha verdade, como o bem de me supliciar que ela faz.
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Submersa na dor de um pseudônimo - que divide o meu reflexo em dois, enquanto eu escolho quem eu quero ser por hoje, e amanhã é depois. E se eu quisera este nome, tuberculoso e pungente, para que o faça refletir em suas lamentações matutinas, minha alma estará salva destes deuses capitalistas. Pois o farei, despretensiosa quanto ao resultado, ver que o seu fardo comparado ao meu é ridiculamente ínfimo. E nesse vereda de luz efêmera, você dará o valor subestimado à sua desprezível vida de alienado à uma era em que se come ouro no jantar.
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O meu propósito? É fazer você gostar de mim, certo de sua piedade e satisfação; quando eu, intencionalmente, não sou essa jovem escritora decadente coberta de limbo. Quando, na verdade, eu sou passos em sintonia com o resto do mundo, caminhando pela Oscar Freire. De Chanel e rímel.
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A minha crença, turva e vil, é na desconfiança desse mundo, e como você já deveria saber, na languidez da Verdade.

sexta-feira, setembro 07, 2007

Cafés Alados

Parou na esquina da correria, descompassada. No balcão da cafeteria, tirou da bolsa o livro mais novo e "Cinco Minutos, só cinco minutos". Apoiava-se sobre uma das pernas, pendendo de um lado para o outro, cotovelos na borda do mármore, estava exausta. Preferiu sentar-se e esquecer-se do inconveniente relógio sob a malha fria da blusa branca de mangas longas. Na mesma inerte mesa rústica de todos os fatídicos dias, uma cadeira vaga. Sentia-se triste; uma tristeza acolhedora, dessas dos dias nublados, guardada no armário com os casacos semi-novos.
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Observava absorta os faróis dos carros dobrando a esquina, enquanto o escurecer carregava uma garoa fina. Cheiro de chuva, de poeira assentada aos poucos, e o som dos pneus acelerados sobre o asfalto embriagado.
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Estava à espera. De um passado, de um futuro, não há como saber. Esperava ansiosamente um presente dos deuses de tudo que existe, uma reorganização do universo à seu favor. Mas não. Uma hora e cinco minutos desencontrada por si mesma. Sobre a mesa, uma xícara de café pela metade e um croissant rejeitado. Pegou o celular, levou-o até a orelha, mas só ouviu o doloroso som da linha desocupada há meses.
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"Longe daqui, tarde demais. Nunca talvez!", e levantou-se bruscamente. Dirigiu-se ao caixa, insatisfeita, incomodada. Algo faltava pesando no ombro esquerdo, seria um abraço, seria... "A bolsa!". Atravessou a cafeteria correndo, já imaginando o prejuízo, delegacia às 20h da noite, funcionários grosseiros...
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Chegando à mesa, o chão ameaçou ceder. Pernas trêmulas, ardência nos olhos e no nariz seguida de lágrimas silenciosas. Sobre a mesa a bolsa estava, intocada. Uma cadeira estava ocupada pelo presente, ausente em tempos de contemplativas vagas visões, mas agora, justo agora, ali. Olhares segredantes e o céu abre-se em sorrisos tortos.
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- De todas as pessoas no mundo, eu não esperava por você.
- É, cheguei três anos atrasado - ele sorri timidamente.
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Ela aproxima-se, avariada.
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- Senta, pequena, toma um café comigo.

terça-feira, setembro 04, 2007

Alma Inquieta


I

Noite ainda, quando ela me pedia
Entre dois beijos que me fosse embora,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

"Espera ao menos que desaponte a aurora!
Tua alcova é cheirosa como um ninho...
E olha que escuridão há lá por fora!

Como queres que eu vá, triste e sozinho,
Casando a treva e o frio de meu peito
Ao frio e à treva que há pelo caminho?!

Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!
Não me arrojes à chuva e à tempestade!
Não me exiles do vale do teu leito!

Morrerei de aflição e de saudade...
Espera! até que o dia resplandeça,
Aquece-me com a tua mocidade!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava...
Espera um pouco! deixa que amanheça!"

- E ela abria-me os braços. E eu ficava.


II

E, já manhã, quando ela me pedia
Que de seu claro corpo me afastasse,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

"Não pode ser! não vês que o dia nasce?
A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta...
Que diria de ti quem me encontrasse?

Ah! nem me digas que isso pouco importa!...
Que pensariam vendo me apressado.
Tão cedo assim, saindo a tua porta.

Vendo me exausto, pálido, cansado,
E todo pelo aroma de teu beijo
Escandalosamente perfumado?

O amor, querida, não exclui o pejo...
Espera! até que o sol desapareça,
Beija-me a boca! mata-me o desejo!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava!
Espera um pouco! deixa que anoiteça!

- E ela abria-me os braços. E eu ficava.


Olavo Bilac. In: Poesias.


Um dia desses amanheceu.
Uma garoa fina, silenciosa,
Ela partiu.

- Guardando abraços,
e o borrão de café na camisola.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Sweeter

Não há felicidade maior. Um flerte, uns olhares traiçoeiros, uns sorrisos despercebidos.
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A Sra. das Peripécias Desimportantes me buscou, tarde da noite. Na garagem, desligou o carro e iniciou um quase monólogo. Não pude ouvir, não conseguia ouvir uma só palavra claramente. Observava suas mãos, gesticulava muito, aumentava o tom da voz. Eu balançava a cabeça em reprovação a cada pausa que ela fazia, como se esperasse uma resposta. Não foi proposital, tentava me concentrar mas não podia, estava em outro lugar.
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Sorri um desses sorrisos despercebidos relembrando aquela tal conversa recheada de malícia e segundas intenções. Mentes perigosas. Ela parou de gesticular, nem movia-se, inacreditando naquele sorriso de canto de boca, afinal, o assunto era seríssimo (?!).
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E novamente o silêncio me faz descer das nuvens. Fico assim, inteiramente satisfeita com o pouco que você me deixa - porque mal me larga e já me agarra. Fico aqui, ou ali sozinha no carro, guardando cada você comigo, para outro encontro logo mais.
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"Você não deveria ser a substituta de ninguém, menina."
Àquele, que não sabe a felicidade que me traz.

domingo, agosto 05, 2007

Permutável

Não é uma questão matemática.
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Mesmo que todos, por trás de portas bem trancadas, sejam um pouco mais humanos. Apelativos, fracos, frágeis. Todos necessitados, insatisfeitos, desiludidos. Implorando por um telefonema, uma carta. E, algumas tantas vezes, você realmente precisa correr na direção da contra-mão, só para ver quem se habilita a se afogar em um poço alheio.
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Ao sair porta afora, vestimos nossas máscaras. Todos plásticos, frígidos, desconsolados. Desacompanhados pela nossa própria determinação ou simples desejo, simples "care about". Umas noites mal dormidas, e o único Deus que todos servem é a propaganda de uma vida irreal.
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Passamos toda a nossa vida velando cada detalhe, escrevendo nossos livros, descrevendo as calçadas minuciosamente. Quase tudo sobre nós, nossos mundos paralelos. E a única parte que deixamos de fora é a verdade. Que de tanto ignorar, deixou de existir. Que alívio!
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Mas a verdade, a impiedosa e imponente verdade, é que depois de muitos anos, você usa a máscara por tanto tempo, que esquece de quem costumava ser debaixo dela. E como tudo que um dia teve o seu merecido valor, desaparece, é substituído por algo prático.
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Em breve, muito além dos guardanapos e embalagens, nos tornaremos descartáveis. Substitutos e substituídos. Esse é o futuro, esse é o horizonte. A linha que recua conforme nos aproximamos. E o som dos violinos pincela o fim delicadamente quando descobrimos que temos um horizonte. Há um nome, há um endereço, há para onde rumar. E, tantas vezes, é tarde demais.

- Se for assim, eu nunca te conheci de verdade.
- Sou essa, que está falando com você exatamente agora. Mas é aqui onde eu fico, entre você e o vestígio do que eu poderia ter sido.
- Então o que eu fui para você?
- O meu breve horizonte.

domingo, julho 29, 2007

Ainda Há Tempo

Acordou tarde no meio do silêncio que cobria toda a casa. Caminhou pelo corredor, fez um chá e se abandonou no sofá. Televisão desligada, janelas fechadas e um frio insuportável. Meias até os joelhos, metade do cabelo preso, não agia como se fosse bonita, nem que realmente estivesse, porque o espelho só refletia tristeza. Uma falta enorme, um vazio, uma solidão. Só aí percebeu o quão sozinha tem se tornado. Dia após dia, o único som na casa das paredes surdas, tem sido o som do despertador, pontualmente às 6h30 da manhã. Levanta exausta, não dorme mais como antes, simplesmente não dorme mais.
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O emprego é bom, o salário é digno e as aulas são suficientemente explicativas. De onde vem a falta? Falta do quê? Desistiu de responder e culpar-se, ou mesmo culpá-lo. Tomou um banho, deixou o vidro embaçar, decidiu não chorar e finalmente deixou o amor que já estava por se acabar. Ele se foi. Aceitar a ruína de si e de tudo que poderia ter sido foi o melhor que ela pôde fazer, para ambos os fracassos. Pessoas vêm e vão. Umas voltam, outras não. E, contudo, poucas permanecem.
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Que para nós nunca houve um amanhã após telefonema, após declaração. Que o amanhã nunca chega, dependa de nós ou não. Por hora, eu só gostaria que ele tivesse ficado um pouco mais, um pouco depois, um pouco tarde.
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Cansou de buscar um comum, um honesto, um verdadeiro. Daqueles, para chamar de meu. Queria ser encontrada, e sua impaciência lhe trouxe todas essas desilusões. E por onde recomeçamos quando nunca houve um fim seguido de ponto final e um doce adeus? Não o faremos. Parece simplório demais para sair da boca do caos que é ser ela. Mas aceitou, educadamente. Pela falta de opção, para sustentar a máscara, quem sabe? Mas aceitou os caminhos que a vida desenha; desses desenhos de criança, ingênuos, desalinhados.
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Entardeceu ao som dos pianos naquele dia. Felizmente, ela decidiu não deixar mais a vida passar diante de si. Que a vida é curta, e a felicidade menor ainda. Não é algo palpável, mas sim perecível. O caminho a percorrer, a busca, o que você faz para chegar até lá, é o que vale a pena. A felicidade é um único momento, frágil, efêmero. Uma música, um telefonema, um dobrar de esquina, e já passou, não está mais lá.
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Lembrará com a saudade de uma foto antiga, todas aquelas tardes.
Que ainda há vida por trás das cortinas. Ainda há tempo.

sábado, julho 21, 2007

Together

- Está pronta? Podemos ir?

Ela terminou de colocar os brincos e dirigiu-se à porta. Contou todos aqueles dezesseis degrais - e quão intermináveis pareciam. Ele a esperava no pé da escada, sorrindo, contente. A segunda moça que carrega para emergências surgiu, retribuiu os sorrisos e o contentamento.

Entraram no carro.

- Pode escolher a música - ele disse.

Ela queria ouvir o silêncio dos sapatos baixos novos, mas colocou a última música adicionada ao MP3, Something A Bit Vague, de Julie Delpy. Ela queria a calma, a quietude da estrada... Mas era uma emergência, aquela de não decepcionar o carinho e a vontade de cuidar daquele rapaz.

Chegaram, desceram do carro. Delicadamente ele aproximou sua mão da mão dela. Incerto de que deveriam chegar de mãos dadas ou não, não chegou a entrelaçar os dedos, como se esperasse uma resposta. Ela sentiu aquela mão fria e insegura, saiu daqueles mundos paralelos em que vive, e respondeu o que ele queria ouvir. Ouvia-se ao longe um violino e via-se luzes quase parisienses.

- Aqui estamos, juntos.



E naquele quase imperceptível momento, ela decidiu jamais deixá-lo só.

quinta-feira, julho 19, 2007

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For every heart that cries,

love left a window in the skies.
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sexta-feira, julho 13, 2007

Leaving Behind

Hoje me ocorreu que algumas vezes, aquilo que mais queremos entre todas as coisas é o tudo que nos falta para deixarmos de sermos nós. E errantes, desequilibrados ou, ainda, apenas nós... Largamos, desistimos, abandonamos. Abandonados pelo nosso próprio mistério, pelo nosso direito de amar.

O quê mais queremos... Nossa fraqueza, nosso poder, nosso suplício e, ainda que em doses homeopáticas, nosso deleite. Mas a pergunta paira no ar: Corajosos ou covardes? Apenas um pouco menos infelizes. Nem mesmo a realidade pode ser mais cruel do que a ilusão. Não vale a pena viver sonhando e se esquecer de viver.

É preciso ter coragem, então? Para deixarmos para trás quem mais amamos? É preciso ser altruísta o suficiente para jogar pela janela da vida em movimento a nossa felicidade? Sim, é a resposta.

Mas será preciso ser covarde? Ser egoísta para sermos, ainda que infelizes, conformados com a estabilidade de nossas vidas? Sem altos e baixos, sem provar o irresistível? Sim, é a resposta.

No mesmo hoje me pediram para explicar o porquê das roupas desbotadas, das meias trocadas e da palidez no rosto - dessas que só surgem quando nada encobre o silêncio. "Perdi o insubstituível", disse. Antes que o alguém não soubesse o que dizer em seguida, completei: "Perdi, não. O abandonei consciente da dor que me perseguiria e que, como vê, me faria decadente, descendente do amor que digo sentir", e subi as escadas sem esperar um comentário.

No fim, seremos o tempo desperdiçado em não-ações, não-amores... Seremos consequências. Acreditando, mesmo que secretamente, que aquilo que mais quisemos um dia aparecerá na nossa porta, ao lado do jornal, com um ramalhete de flores. E nesse momento, nessa ínfima possibilidade, conheceremos o gosto da felicidade combinado com todo o tempo perdido.

domingo, junho 24, 2007

Cá Entre Nós

Cedo acordou e no jeans 38 entrou. Atravessou o corredor e percebeu que a casa precisava de cor. "Comprarei as flores eu mesma", pensou. Bateu a porta como se não fosse voltar - e até então, realmente não voltaria. Desceu os degrais apressadamente e ouviu algo cair no chão. Mas nada a faria voltar atrás. Nada.
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Enquanto esperava o ônibus e estalava dedos, costas e nuca, abriu a mão direita - o lembrete era claro, "Respire". Tomou o ônibus e sentou ao lado da janela. A beira da estrada era a única testemunha do seu desaparecimento. "Silenciosa estrada, eu espero", sorriu.
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Três horas e meia de viagem e ela só queria dormir. Nada mais. Mas quando se tem insônia você nunca realmente adormece. E você nunca realmente acorda. Buscou uma distração qualquer através da janela empoeirada. Nada, era só o asfalto de uma estrada que ela jamais havia visto, e ridiculamente como todas as outras.
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Pensou nos valiosos objetos que deixou para trás. Nas suas coleções, suas páginas e mais páginas de folhas espalhadas pelas gavetas. Podia ver todos aqueles metros quadrados vazios e em tantas ocasiões entulhados de pessoas luxentas, que só estavam lá para falar dos segredos dos outros, e desses outros aterrorizados pela possibilidade dos seus pecados explícitos. Ah, Sophie, sempre dando festas para encobrir o silêncio. Fechou os olhos e podia tocar aquelas paredes desgastadas e descoloridas... "As flores!".
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Levantou ofegante e acionou a campainha. Desceu no ponto seguinte de "lugar-nenhum". Imagine um deserto acutilado por uma estrada e cercado de ventos arenosos onde você é o que os atrai. Imagine e estará lá, também. Sophie sentou-se em um banco pouco convidativo, levou as mãos a cabeça e admitiu: "Estou perdida". Em seguida soltou uma risada que pareceu ecoar por todo aquele deserto.
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Foi então que ele apareceu: "Tá fugindo de quem?". Era um homem alto, jovem, apático e só tirava as mãos dos bolsos da jaqueta de couro para acender o próximo cigarro. Havia algo extremamente atraente nele, Sophie percebeu desde a primeira vez que lhe pôs os olhos.
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"O quê?", ela respondeu. "É, fugindo de quem?", ele insistiu enquanto acendia um cigarro. "O que o faz pensar que eu estaria fugindo de alguém?", ela replicou usando seu tom mais culto. "Tem um excesso de desespero na sua risada", ele esticou o pescoço e fitou-a enquanto aproximava-se. Ela, gaguejou umas sílabas e não chegou a dar uma resposta. Mas ficou pensando no ato de fugir, no desespero que sentia e principalmente: "Do quê eu fugi?". Ele a ouviu murmurar, ofereceu um cigarro, e: "Precisa de ajuda?". Ela esticou a mão e levou o cigarro a boca, ele acendeu. "Eu não tinha porquê fugir, não comprei as flores, não sei onde estou e nem como voltar, e aceitei um cigarro de um estranho" e ele "Pra ser sincero, acho que eu sou a sua menor preocupação".
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Os dois riram e conversaram por horas no deserto sem pêndulos. Até que um ônibus surgiu no horizonte. Seria aquele ou nada mais importaria além do momento, de estar ali com aquele estranho e da felicidade barata que sentia. "É isso, é o adeus" e ela "Acha que vamos nos ver de novo, algum dia?" e ele "Você sabe onde me encontrar, linda Sophie".
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Não, ela não sabia. Mas entendeu que, por destino ou acaso, ele estaria lá todas e quantas vezes ela precisasse. Sem promessas, sem endereços, sem testemunhas. No final, tudo o que resta é o que sabemos que vivemos e o que nos faz ser quem somos, mesmo que desconhecidos ou estranhos, ou perdidos.
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Sophie subiu no ônibus e acenou para ele. Ele acenou de volta, e da mesma maneira que surgiu, desapareceu. Chegando em sua pequena cidade ela comprou as flores. As pessoas, as ruas, as calçadas, tudo do mesmo jeito que ela havia deixado. Vez em quando, ela se perdia quase que propositalmente, pois sabia... Ele estaria lá.