quinta-feira, agosto 28, 2008

O poder dos morangos

Era noite. Eu voltava do mercado em passos descompassados, tropeçando pelos paralelepípedos salientes da rua tortuosa. Entrei no carro e abri todas as janelas, desejando que o vento forte e gélido arrastasse aquela imagem da minha mente. Fechei os olhos, levando as pontas dos dedos às têmporas. “Por que o tormento sempre retorna?”, perguntei atônita para a minha incompreensão. Esta me ignorou enquanto o carro já estava freando na porta da garagem de casa. Peguei as sacolas no porta-malas e bati a porta com raiva, talvez um pouco rude demais. Subi as escadas batendo os pés. Senti o céu escurecendo dentro de mim, ouvi rugidos baixos vindo do meu peito. O som que as sacolas fizeram ao chocarem-se com o chão da cozinha camuflaram o trovão que explodiu dentro de mim. Sentei na banqueta da cozinha e me encolhi cruzando os braços. “Por que comigo? Por que não some?!”, resmunguei furiosa pra mim mesma. De tantos mercados de tantos bairros de tantas cidades, ele foi entrar logo no meu. Era o erro do passado ressurgindo, simpático, bem no meio do meu recomeço.
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Senti minha cabeça rodar e minhas narinas arderem, a chuva torrencial estava para desabar dos meus olhos. “Não!”, gritei por debaixo do fôlego. As nuvens negras dos meus olhos pressionaram, encharcadas, mas recuaram com o horror do meu tom. Ajoelhei no chão e comecei a desfazer as sacolas, ou destrinchá-las brutalmente! Guardei os frios na geladeira e a fechei, com ódio emergindo das minhas palmas. Pude ouvir os frascos lá dentro balançarem e se chocarem. A platéia que podia me ouvir lá da sala de estar invadiu o ringue e perguntou-me, preocupada: “Você está bem?”. Engoli seco, minha voz não a convenceria da minha sanidade, eu apenas assenti. Coloquei o abacaxi em cima do mármore para fatiá-lo, fatiar a lembrança daquele rosto latente em minha mente. A invasora arregalou os olhos quando me viu puxar uma faca da gaveta e fechar a mesma, de novo com força demais. Controle-se, mulher! eu suspirei pra mim mesma ao notar sua reação. Levantei minha mão livre, impedindo sua aproximação, e fechei os olhos para me recompor. “Me dê um minuto, está bem?”, minha voz saiu quebrada e eu percebi que a tempestade estava à espera. Abri os olhos para encarar a mulher boquiaberta, e tentei sorrir. Ela torceu os lábios, enrugou a testa, mas se afastou sem dizer nada. Eu não convenceria ninguém esta noite. Ninguém. Nem a mim mesma. A rendição alimentou as nuvens ansiosas nos meus olhos, senti minha respiração desregular e o sangue subir para as minhas bochechas. Larguei a faca no mármore frio e me encolhi ao deixar meu corpo cansado cair sobre a banqueta novamente.
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É melhor deixar chover... de uma vez por todas. As nuvens ácidas derreteram o chocolate vívido dos meus olhos, apertei os com força, levando as pontas dos dedos às têmporas mais uma vez. Era tarde demais. A ardência nas narinas e nos olhos que sempre eram seguidas de uma tempestade incessante de lágrimas traiçoeiras percorria todo o meu corpo, fazia meus ossos virarem esponja, fazia do leão rugindo em meu peito um gatinho acuado. Sua tola. As lembranças enterradas e adormecidas na minha alma despertaram, atravessando minha mente, velozes, astutas, golpeando-me por todos os ângulos. Gemi um choro silencioso, reconhecendo aquela dor antiga. E, de repente, imagens turvas de uma menina pintando os lábios para impressionar alguém; uma menina corando com elogios ocasionais que lhe eram feitos, recebendo com carinho e admiração mentiras sinceras, restos e sobras. Uma última imagem, mais nítida e recente do que as outras, passou por mim agora, demorando um pouco mais para escurecer, prolongando o misto de agonia e prazer – se despedindo. Um rosto quase esquecido, pouco à vontade, sorrindo, tímido: a cena final de um curta-metragem surreal. “Ainda uma vez, adeus”, eu murmurei.
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Duas lágrimas caíram: uma pelo que poderia ter sido; outra por o que não foi. Abri os olhos, piscando repetidas vezes, limpando a visão da realidade nua e simples da minha cozinha. Apoiei minha cabeça nos joelhos e deixei os fios longos e embaraçados do meu cabelo colidirem com o chão. Sorri. Sorri largamente agora. Joguei minha cabeça pra cima, retomando minha posição. Não foi um roteiro muito criativo, não é? pensei, divertida. Que curta-metragem desconexo nossa história tinha sido. Nossa não, minha. Ele não envelheceu nem um dia, queira Deus que ele fique bem. Alma lavada.
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Voltei-me para o meu lado de dentro, analisando os estragos que esta tempestade devia ter feito. Hum, nada mal. Sorri de novo, com humor. Apenas uma velha cicatriz dolorida na minha alma, daquelas primeiras feridas da imaturidade. Pobre menina remendada. Respirei fundo antes de voltar para o abacaxi em pedaços e para os morangos recém-lavados sobre o mármore. Ah, enfim. Sorri pra mim mesma uma última vez esta noite, aspirando o cheiro delicioso das frutas na minha pele, sentindo o gosto doce e cítrico na minha língua – o gosto que a vida tinha, e que sempre haveria de ter.
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Agora já não me importava quantas vezes mais o azedume do amor se faria presente no meu ser, no meu ego ferido. Na estrada dos que não se abandonam, sempre haveriam morangos.
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'cause without the bitter, baby
the sweet ain't as sweet.

terça-feira, julho 29, 2008

Molduras vazias

São tantas as preciosidades emolduradas entre as rachaduras do meu peito. Eu sei que eu não deveria me apegar tanto ao surreal, ao fictício... Mas me apego. Porque às vezes, não de forma pejorativa, mas milagrosamente, isso é tudo o que eu tenho. Os livros favoritos espremidos nas pequenas prateleiras, as coleções de arte espalhadas displicentemente pelo criado-mudo, os filmes escorregando pela madeira lisa da parte mais alta da escrivaninha. São coisas perecíveis, desnecessárias, você diria. Mas tê-las com exclusividade é um alívio tão grande. Elas, minhas preciosidades, sustentam as bases precárias do meu ser. Como se eu pudesse fazer das minhas costelas prateleiras seguras e da minha pele pálida uma vidraça blindada, nublada. Afinal, os grandes tesouros devem ser enterrados bem fundo e a superfície camuflada.
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Ah, o silêncio. O silêncio pode ser tão mais reconfortante do que as palavras imponderadas das pessoas. Pessoas podem ser tão inconsequentes, tão irresponsáveis, tão perigosas. Você já entendeu, não? Eu sempre faço muitos floreios antes de chegar a lugar nenhum. Sou incorrigível. Mas a verdade é que a grande maioria das pessoas, tão humanas e calorosas e com, ao menos, uma faísca de bondade dentro delas, são na realidade criaturas míticas com punhais nas mãos e veneno nos caninos. Se não te machucam fisicamente, certamente machucam a melhor parte de você, aquela parte que você se permitiu esconder. E o silêncio surge de novo, convidativo e suave demais para ser quebrado.
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Em dias como este, aparentemente ensolarados e casuais, eu me lembro que já pilotei aviões enormes, uma porção deles, em condições desfavoráveis. Lembro o quanto as pessoas neles se pressionavam sobre mim até que eu mergulhasse céu abaixo. Eu bati a 200 km/h e voltei pra casa, avariada. Mas nunca houveram outros sobreviventes. Teria eu os matado? Não, em dias como este tudo se esclarecia: ninguém nunca bateu o rosto na aspereza voraz do asfalto comigo. Todos sempre saltavam antes, de pára-quedas, e dançavam no céu, se afastando das nuvens até atingirem o chão do outro lado da fronteira que eu nunca pude cruzar.
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E eu me sinto bem por isso. Não houveram ossos quebrados nem grandes hemorragias - talvez alguns soluços nos primeiros dias, mas só. Enfim, em dias como este, quando o sol sonolento se deita radiante, eu vejo a minha sombra se alongando pela estrada e, apesar de nunca ter sido capaz de emoldurar rostos uma vez queridos entre as rachaduras do meu peito, eu me lembro de não parar de caminhar. E de tentar outra vez.

domingo, julho 13, 2008

Viva lá revolución

"Alguns exibem sua beleza porque querem que o mundo a veja. Outros tentam esconder sua beleza porque querem que o mundo veja outra coisa".
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Foi este trecho de "Quatro Amigas e um Jeans Viajante" que fez o filme todo valer a pena. Trecho que me fez refletir por quase três dias inteiros e que me fez, pela primeira vez na vida, sentir orgulho da minha impopularidade, da minha timidez e de tantos outros caracteres em mim que já me fizeram nomeá-los "maiores defeitos".
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Talvez o meio em que estamos realmente nos afete, talvez seja esta sociedade moderna, exibicionista e tão cruel para com os que recusam-se a aceitá-la. Sim, de fato, penso que sim. Desde crianças aprendemos a como nos comportar, aprendemos sobre o falso moralismo tão divulgado e aceito por nós. Assimilamo-o e a ele nos submetemos. Quantas vezes me perguntei se eu era a única a encontrar na juventude um erro e uma ignorância de proporções catastróficas. Por que esta necessidade de sermos aceitos por todos ou, pelo menos, pela maioria, nos submete a tão terríveis alienações? Vejo isto em meus próprios amigos e seus Orkuts, Fotologs, etc. Vejo isto em mim. E, de repente, sou a mais tola das pessoas. Eu tentei me adaptar à sociedade dos boatos e rumores, das conclusões precipitadas. Mas devo dizer que me recuso a participar por mais tempo deste tão convidativo espetáculo de outdoors. Felizmente, não tenho mais o receio de me impor contra tão tolas generalizações. Sou do contra, sou de esquerda. Que minha boa reputação seja queimada em praça pública. Que minha doçura, meiguice e tolerável beleza sejam esquartejadas aos olhos daqueles que são de tal opinião a meu respeito.
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Nunca fui de ter rédeas ou de me deixar conduzir, mas o fazia pela boa aparência que a todos causava, o fazia principalmente para passar despercebida, para ser invisível, insignificante até. Sempre guiada pelo medo de deixar às claras minhas jovens, mas ainda assim firmes, opiniões. Medo este que a minha dita maturidade fez o favor de dizimar. Hoje tenho o imensurável prazer em dizer que não pertenço a um bando, uma banda ou à um grupo específico; minha consciência é minha doutrina.
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Não acredito que mais de cem comentários em meu Fotolog, mais de vinte mil recados em meu Orkut e mais de trezentos amigos online farão de mim uma pessoa melhor ou mais agradável ou, que farão de mim melhor cidadã, melhor ser humano. Veja, não estou criticando quem possui todos esses artifícios: estou criticando quem os têm pelas razões erradas. Nossas singularidades e excentricidades são o que nos tornam únicos, o que nos tornam interessantes. Estes sim, em minha concepção, são os verdadeiros artifícios que têm, ou pelos menos deveriam ter, valor. E esse foi apenas o exemplo mais corriqueiro que surgiu em minha mente daquilo contra estou, no mínimo, revoltada.
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Mas não me dê ouvidos, ó caro leitor, e não desperdice nem mais um minuto de seu tempo comigo. Sou pessoa extremamente taciturna e de pouca importância nesta enorme esfera virtual: não vou adicionar se não me deixar um scrap.

domingo, junho 22, 2008

Como nossos pais

A instabilidade do relacionamento de meus pais, agora eu vejo, me influenciou a vida inteira, e ainda influencia. Digo "ainda" pois até o presente momento nenhum dos dois começou a fazer as malas. Mas nunca se sabe.
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Minha mãe, eu sei, amo incondicionalmente, e não me importo com o clichê da palavra. Me dói saber que ela sacrificara tanto de sua vida por mim e pela minha irmã. Porque veja, ela só fora verdadeiramente - ou suficientemente - feliz durante os primeiros dois anos de seu casamento. Ela casou-se ainda tão jovem, tão desamparada por sua própria família... E este fato acarreta em mim uma culpa ainda maior.
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Não sei o que houve após estes dois primeiros anos de casada. Penso que o fracasso desta união se mostrara já naquela época, mas ninguém admitiu. Depois disso minha mãe se submetera a uma vida de alienação, como dona-de-casa, como mãe, como esposa, como secretária de meu pai. Eles não se amavam. Nunca houve paixão. Creio que eles apenas aprenderam a conviver como companheiros de vida. Mas com a chegada da primeira filha - sim, eu - os dois se viram formando uma família, já não havia caminho de volta. Ou era como eles pensavam.
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Antes de prosseguir, é necessário falar sobre meu pai. Meu pai sempre será para mim o homem que aplicava os castigos, que me dava cintadas nas pernas quando eu o desobedecia, na infância. Os anos se passaram e eu atingi a maturidade, parando assim de desobedecê-lo, tentando desesperadamente deixá-lo orgulhoso sempre que possível. Não tivemos relações mais próximas desde então. Mas, por favor, não construa a imagem de um pai ausente: ele dormia em casa todas as noites. Como vê, por minha parte quase não tenho do que reclamar: ele sempre pagou as contas e nunca atrasou uma mensalidade do colégio particular em que estudei. O mesmo tem sido para minha irmã. Levamos uma vida confortável. Não há o que eu não peça ou deseje que ele não procure me dar. Talvez esta seja sua maneira de demonstrar seu amor de pai. Amor este que eu duvido existir algumas vezes.
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Meus pais completaram 22 anos de casamento na última sexta-feira sem maiores comemorações. Passado estes 22 anos, eles têm uma casa grande e confortável, dois carros na garagem, duas motos, dois cães e por último, porém não menos importante, duas filhas com a diferença de dez anos entre elas. Então me vem a mente as palavras: divisão de bens. Será tão fácil dividir uma vida inteira em duas partes iguais? Durante todos estes anos o casamento deles entrou em um círculo vicioso de tentativas mal-sucedidas para fazer da certo. Embora discutissem e decidissem pela separação, no dia seguinte voltavam atrás e permaneciam juntos até a próxima discussão. Eu me pergunto se não será esta apenas mais uma dessas idéias sem braços. E não sei a resposta. Tudo que sei, é que um arrastou o outro através dos anos, dos natais, feriados e páscoas, ambos submersos em sua particular infelicidade e insatisfação, a negar o fracasso presente em suas vidas. Permaneceram juntos mais pelas circunstâncias, pelas filhas e bens do que pelo sentimento.
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Não gosto de expor minha família e minha história dessa maneira, pois não tenho como defendê-los do julgamento que você, ao ler este texto, poderá fazer. Não é vergonha nenhuma para mim tê-los como pais, juntos ou separados. Não é vergonha admitir meus problemas e minhas fraquezas, mas a verdade é que não há o que eu não faça por eles. E se escrevo é para tentar esclarecer e organizar meus pensamentos. Contraditoriamente, sou mais forte diante dos problemas maiores do que dos cotidianos. E concluo, enfim, que não há o que eu possa fazer além de esperar que eles resolvam suas vidas da melhor maneira possível. Apesar de todos os pesares, eles são a minha família e o meu único vínculo com o passado. E desejo, otimista e ansiosamente, carregá-los em direção ao futuro. E que venham os advogados.

quinta-feira, junho 19, 2008

Mutante Mulher

A esperança que restou encontra abrigo e abraço na minha convicção de que, mais cedo ou mais tarde, inquestionáveis verdades serão estas descaradas mentiras que eu me conto diariamente. Já não tenho religião nem identidade. Sou nômade. Já não me alcanço de tão longe que fui. Já não conto as horas deste vôo sem escalas.
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But don't you worry.
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O meu suposto sofrimento é crônico, e é só meu. O meu egoísmo é tão abrangente que não deixa esse sentimento se esvair. É meu. O meu amor, o meu ódio e a minha loucura... São todos meus. E o que é meu eu não divido. Nem mesmo com os que me despertam tais sentimentos, tais sensações.
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But don't you dare.
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A minha instabilidade é o meu veneno e o meu antídoto. Me reconstruo. Me reinvento. Sou o pior e o melhor que há no mundo, assim sem poesia. Sou sonho em carne viva. Não me recomendaria.





Me sou conveniente.
Me sou suficiente, e só.

domingo, junho 15, 2008

Dia dos Namorados

Depois de tentar se distrair assistindo a um filme no cinema, fazendo compras e suando na academia (onde só haviam casais estupendamente apaixonados, de todos os tipos: emos, homos, heteros, etc.), ela resolveu afogar suas mágoas - e o dia dos namorados, claro - em uma xícara de café expresso, na mesma mesa para dois, da mesma padaria, da mesma esquina de todas as sem-saídas. O mais irônico, pensou, é que não importa quantos relacionamentos aparentemente bem sucedidos ela tenha no decorrer do ano, não houve um só dia dos namorados em que ela pôde comemorar algo mais do que seu sucesso em não conseguir manter uma relação até o mês de junho.
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O ambiente, como você pode imaginar, servia de abrigo a outros desafortunados solteiros. Uma meia-dúzia de mesas para dois ocupadas por apenas uma pobre alma. Se sentiu engraçada quando se deu conta disso. "Estou ficando experiente em dialogar com cadeiras vazias", voltando seu olhar para a xícara de café. "Deus queira que eu não seja a única" sorriu em voz alta e ergueu os olhos, ainda com um sorriso de auto-piedade esboçado em seu rosto corado pelo frio que fazia.
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Exatamente às doze horas, bem à sua frente, estava um outro coffe addicted a exercer o mesmo árduo trabalho de adoçar o café girando a pequena colher de plástico em sua borda, o mesmo a que ela se dedicava naquele instante. Ele sorriu de volta, mesmo sem encontrar a graça da colher de plástico, e tinha tantos dentes na boca, lábios levemente avermelhados e tão lindamente desenhados, que ela continuou sorrindo sem notar. Ele era uma mistura de Strokes com Oasis, impossível de criticar. Caras tristes com guitarras, o tipo dela. A barba estava por fazer, o cabelo desarrumado - e poderia ser melhor? -, convenientemente sozinho... "Marry me, babe", ela pensou.
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Então ele disse "Oi", com um aceno ligeiro e um sorriso longo. Ela respondeu "Oi", rindo nervosamente e desviando o olhar. "Meu nome é Guilherme" ele disse, cruzando os braços sobre a mesa. "O meu é Gabriela" ela respondeu, colocando mais açúcar no café. "Café amargo?" ele perguntou. "Dia dos Namorados", ela respondeu com um sorriso amarelo. "Eu ia perguntar se o seu namorado está atrasado, mas eu gostaria tanto que você não tivesse um", ele disse descruzando os braços e relaxando na cadeira, fitando-a com aqueles olhos pequenos mas tão vivos. Nesse instante ela fez-se defensiva e chegou a pensar em ir embora, mas lembrou-se de quem a esperava em casa: seu vira-lata Bruce. Ouviu uma voz interna dizendo "Pare de ter medo de viver, mulher".
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"Então você deve estar com sorte hoje"- pasme, ela respondeu ao flerte. Ele sorriu novamente aquele sorriso de tantos, tantos dentes. "Eu posso...?" ele perguntou, incerto da resposta que viria, apontando para a cadeira vazia na mesa dela. "Por favor" ela respondeu desfazendo-se da insegurança. Ele levantou-se e atravessou o abismo que os separava. Ele vestia uma calça jeans, um moleton cinza e um all star surrado - maior abandonado.
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Eles se olharam em silêncio por um instante, depois começaram com o básico: o que gosta de fazer, de ouvir, de ler, de assistir. "The O.C., não? Tenho a primeira temporada", ele disse. "Alguma cena favorita?", ela deu continuidade. "Primeiro capítulo da primeira temporada, eu acho, primeiro encontro de Ryan e Marissa". "Ah, sim! Uma das minhas favoritas também", ela comentou e, um segundo depois, decidiu brincar com a intertextualidade: "Se eu sou Marissa, quem é você?" ela perguntou fitando-o desconfiadamente. Ele leu seus pensamentos, como já havia feito tópicos antes e, levando a colher de plástico ao canto direito da boca, com os cabelos caindo nos olhos, ele respondeu: "Quem quiser que eu seja". Ambos gargalharam e sorveram as horas daquele encontro inesperado.
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O irônico era que, a cada palavra dita e informação trocada, tudo que podia ser comprovado era o quanto eles eram parecidos. Em sorte e azar, em filme e música. E como eram singulares em seus respectivos mundos, agora colidindo sem querer, e querendo tanto. Ininterruptamente, sem poder evitar. Ambos atraídos pela emoção que encontravam um no outro e que, insaciavelmente, podiam dividir.
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Somehow we've find
You and I have collide

sábado, junho 07, 2008

Afraid so

Ainda me lembro de quando tinha meus treze ou catorze anos e atravessava madrugadas ouvindo a mesma música repetidamente, e pensava que se eu pudesse escrever algo bonito, honesto e verdadeiro, alguém me amasse. Eu também canso de ser piegas e "a joke of a romantic", mas era como eu me sentia. E, surpreendentemente, como me sinto neste instante.
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Ao lembrar desses tempos, é inevitável não lembrar do meu primeiro amor. Deus! Quantos filmes, quantas linhas mal traçadas, quantas músicas, quanta intensidade. Gostaria de poder falar sobre ele, sobre o que ele gostava de fazer além de me extasiar, pequenos gestos, peculiaridades; mas não consigo. Não consigo porque, na verdade, o conheci muito pouco. Eu pensava o conhecer integralmente, mas a verdade é que ele não ficou tempo suficiente na minha vida. Não tenho do que reclamar. Com a mesma intensidade que veio (perseguição, ciúme virtual, declarações desesperadas por MSN), também foi (dias sem comer, dias sem dormir, semanas para eu me adaptar ao vazio).
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Depois dele vieram paixões menores, e ainda assim avassaladoras. Duradouras foram as que duraram pouco mais de um mês. De repente, me acostumei a não sentir nada. Escrevia displicentemente, assim, para ninguém, afim de não me diagnosticar um enorme vazio coberto por uma tênue camada de piadas inteligentes, humor irônico e frases decoradas. Foi aí em que eu descobri a efemeridade das coisas.
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E nesta fila estafante do correio eu permaneço. Nenhuma destas faces desconhecidas parece ter segredos para mim. Por quê, Ó Pai? Por que não sentir nada é tão mais fácil, tão racional, tão auto-sustentável? Por que esse misto de sensações indescritíveis chamado amor soa ridículo, mas ridículo mesmo, quando sai da minha boca? Por que eu não consigo acreditar em mais nada, em ninguém? Por que pentear o cabelo, beber água, sonhar - por Deus, até mesmo sonhar - se tornaram coisas tão banais?
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Uma vez me disseram que depois dos dezoito anos eu iria querer voltar no tempo. Bom, nem precisei chegar lá para me dar conta de que fiz tudo errado. Meu Deus, eu fiz tudo errado. Eu não me reconheço, não me encontro. Só sinto um pouco de paz quando deitada de barriga para cima na calçada, conto estrelas. Fingindo não morrer de medo da imensidão azul-marinho diante dos meus olhos. E peço fervorosamente, murmuro, para que aquela imensidão se torne mar e me engula. É assim que me sinto todo o tempo, fingindo não morrer de medo da banalidade das coisas, da efemeridade dos bons momentos, da invalidade dos velhos tempos.
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Saio correndo do caixa 3 enquanto a apática atendente me substitui: "Próximo!" Corro pelas calçadas, atravesso a rua. Um casal de idosos sorri para mim, eu sorrio um sorriso desesperado. E tenho medo, tanto medo. Então começa a chover e eu agradeço, agradeço rindo descontroladamente. Porque a chuva mascara meus olhos marejados, se mistura às lágrimas que caem, desesperadas, querendo encontrar o chão. Abro um pouco os braços e fecho os olhos, me entrego. A chuva me fragmenta, e como estas mais honestas palavras já escritas, me carregam mundo afora. Mas ainda mais importante: me levam para um lugar desconhecido, me levam para longe de mim. Isso me acalma. E eu sigo em passos lentos, despedindo de mais um pesadelo que me pega de jeito, sem jeito e de peito aberto.

quinta-feira, maio 22, 2008

Epifania Pálida

Hoje eu acordei querendo pensar branco. Pensar em azulejo de cozinha. Azulejo de cozinha, coisa banal. Só queria pensar no azulejo branco, naquelas dezenas de azulejos brancos à minha frente. E pensar no café. Café quente, quente. Descendo pela minha garganta. Eu sentia o café quente descendo pela minha garganta e sentia quando ele encontrava morada no meu estômago. Batia no estômago e queimava, ardia! Mas quando a quentura do café fazia doer, outro gole vinha logo em seguida e queimava também. E eu me esquecia do que ardia por dentro, porque ardia por inteiro. E enquanto ardia, o azulejo permanecia branco. Branco e calmo - calmaria puritana corrompível! Sim. Corrompível. Pensava branco, era banal. Eu adorava pensar branco e sentir ferver. Adorava. Adorei.
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Saí de casa sem vontade, não muito à vontade. Saí de casa e só. Mas não só. Saí de casa e a blusa subia, a saia descia. Roupa maldita e infernal! Quis ficar nua. Quis ficar do avesso. Eu quis ficar nua e do avesso e mostrar ao mundo como por dentro ardia e doía e queimava. Eu quis, mas foi um querer rápido de quem não sabe ousar. Eu quis, mas não pude. Não podia nem comigo, que dirá com o mundo. Ponderava. Ponderei.
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Restaurante. Entrei no restaurante, tímida. A roupa incomodava e nas unhas dos pés o esmalte estava pela metade. Ninguém sabia, ninguém notava, mas me incomodava. Pensa branco, mulher. Pensa branco. Primeiro a salada. Enchi o prato de brócolis e um molho que odiei, mas não fazia mal: por dentro ardia e queimava, e do molho eu não gostava. Molho. Pra quê molho? Coisa banal. O maldito molho me estufava. É, estufava. Estufei.
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Carro, rodovia, trânsito. Maldito trânsito! Acelera, acelera! Passa por cima que eu quero chegar do lado de lá! Mas não acelerava. Emputecida eu estava, mas não sou de demonstrar. Farol aberto. Caminhos abertos. Portas abertas. Tão bonito dizer "Minha porta estará sempre aberta pra você!", mesmo sendo mentira. Mentira, coisa tão banal. Tão divertida e ilegal. Normal. Tudo que eu gosto engorda, é ilegal ou imoral. Longe eu estava, viajava. Viajei.
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"Quanto tempo! Me dá um abraço aqui". As escadas eu subi sem saber o que dizer. Mas disse. Estranho, não lembro o que disse. Perdoa, não era o que eu queria dizer. Ah, sentei. Tentei me mostrar à vontade. Mas não tinha vontade. Fuck! De repente surgiu vontade de dizer uma porção de palavrão. Por que eu não posso ser, de verdade, assim como me mostro, de bem com a vida? Pensa branco, pensa branco. Oh, motherfucker. Me distraíram. Na hora eu esqueci, mas obrigada. Obrigada por me distrair, eu estava para explodir. Obrigada. Me falaram, uma porção coisas aleatórias que eu nem precisei perguntar. Obrigada. Com ela eu fiquei extasiada. Porra, também sou assim! Obrigada. Agora eu posso sair por aí sendo eu mesma, obrigada. Não tenho regras, não tenho rédeas. Vou cavalgar! Não me procure, não me espere. Longe eu sempre vou estar. Meretriz no Alabama ou mulher-bomba em Bagdá. Não vou ficar. Não ficava. Não fiquei.
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Hoje eu acordei querendo pensar branco. De um branco sem perturbações. Hoje eu vou dormir refletindo todas as perturbações do mundo, todas as cores. Perturbada, feliz e ainda extasiada. Eu mesma, eu só. Mas não só. Eu do meu lado, aventureira. Muito louca, de um louco banal. Velho mundo banal. Mas ainda meu, meu mundo banal. Do mundo eu quero o que vier. Quero viver. E viverei.

segunda-feira, maio 12, 2008

< Digitar uma mensagem pessoal >

Creio não saber o que escrever, porque já não sinto nada. Assim, inconsistente. Não é tristeza, nem alegria. É o silêncio do meu desespero.
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Eu gritaria, mas não quero por antecipação alardear o que está à minha espera. Tem que estar. Eu preciso que esteja. Para que o mundo volte a ser canção barulhenta e intensa, daquela intensidade que eu costumava sentir.
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Creio não saber dizer através de qual ferida esse silêncio tomou conta de mim. Mas aviso: se precisar, me estilhaço inteira.

sexta-feira, abril 04, 2008

Confissão

Já reparou em como qualquer adjetivo benévolo - bonito, carinhoso, amável - passa a tomar forma e obter um nome dito pausadamente, assim, no diminutivo quando amamos? Até mesmo os substantivos como amor, boca e sorriso tornam-se tão característicos da pessoa amada que já não existem coincidências - só destino.
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Nesse estágio, nesse pico, o amor sentido é tão substancioso que cresce em desproporção ao amor recebido. É então que o sentimento ultrapassa todas as camadas de pele do corpo, ultrapassa o tecido, sai pela boca, pelos olhos e ouvidos. Não é suor, mas é salgado, talvez amargo, pois estamos fartos dessa doçura dentro de nós, dessa nobreza, dessa paz.
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Eu, no caso, tenho amor preso na garganta. Eu já não canto: declamo. Os agudos desafinados saem suaves. Também escrevo, compulsivamente. Chega amor nos meus pulsos e músculos, e mãos. Já não posso dizer que sou dona desses suspeitos sorrisos despercebidos, dessa desatenção, desses suspiros. Me aprisiona dentro do peito, meu bem, que eu sou culpada, confesso.

segunda-feira, março 31, 2008

À Espera

Ultimamente, tenho levado horas para dormir e já não sei o que é correto ou se sou capaz de inibir esse amor. Passo a noite a velar esse sentimento indubitável. Não creio precisar de comprimidos, amor não é doença. Você, amor, é um bem imensurável mesmo quando mal me faz. Me cega e descompassa, e, ainda assim, me torna ilimitada.
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A verdade é: me acostumei com você, com seu jeito de ser. Me entorpece com essa independência heródica de mim. Minto se disser que não prefiro assim. Quero-lhe tão bem, urgentemente. Porém indago se desejo-lhe apenas pelo prazer de variar e tornar meus dias corriqueiros e descoloridos um pouco melhores - ou muito melhores. Sou egoísta. Sempre tratei de amor como algo palpável, perecível, um entretenimento qualquer. Coisa de fera ferida? Talvez. O que é o amor senão aquele que fere e jamais cicatriza permanentemente?
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Mas o que há de errado em ser egoísta? Talvez eu lhe ame porque você não precisa de mim. Talvez eu precise mesmo de você, para me fazer querer ser uma pessoa melhor. Talvez milhões de coisas; talvez nenhuma dessas.
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À espera de algo que não sei ao certo o que é, eu permaneço. Madrugada adentro, me perdendo nos lençóis listrados. Com a mesma xícara de café de todas as longas esperas, na janela de todos os outonos, a contar folhas caídas. Mesmo os corações inóspitos necessitam de ritmo e rima - o faça com maestria, meu bem. Deixe os arrependimentos para depois, e vem.

domingo, março 16, 2008

O Salto, por Antonio Prata

A gente não tem como saber se vai dar certo. Talvez, lá adiante, haja uma mesa num restaurante, onde você mexerá o suco com o canudo, enquanto eu quebro uns palitos sobre o prato – pequenas atividades às quais nos dedicaremos com inútil afinco, adiando o momento de dizer o que deve ser dito. Talvez, lá adiante: mas entre o silêncio que pode estar nos esperando então e o presente – você acabou de sair da minha casa, seu cheiro ainda surge vez ou outra pelo quarto –, quem sabe não seremos felizes? Entre a concretude do beijo de cinco minutos atrás e a premonição do canudo girando no copo pode caber uma vida inteira. Ou duas. Passos improvisados de tango e risadas, no corredor do meu apartamento. Uma festa cheia de amigos queridos, celebrando alguma coisa que não saberemos direito o que é, mas que deve ser celebrada. Abraços, borrachudos, a primeira visão de seu necessaire (para que tanto creme, meu Deus?!), respirações ofegantes, camarões, cafunés, banhos de mar – você me agarrando com as pernas e tapando o nariz, enquanto subimos e descemos com as ondas – mãos dadas no cinema, uma poltrona verde e gorda comprada num antiquário, um tatu bola na grama de um sítio, algumas cidades domesticadas sob nossos pés, postais pregados com tachinhas no mural da cozinha e garrafas vazias num canto da área de serviço. Então, numa manhã, enquanto leio o jornal, te verei escovando os dentes e andando pela casa, dessa maneira aplicada e displicente que você tem de escovar os dentes e andar ao mesmo tempo e saberei, com a grandiosa certeza que surge das pequenas descobertas, que sou feliz. Talvez, céus nublados e pancadas esparsas nos esperem mais adiante. Silêncios onde deveria haver palavras, palavras onde poderia haver carinho, batidas de frente, gritos até. Depois faremos as pazes. Ou não? Tudo que sabemos agora é que eu te quero, você me quer e temos todo o tempo e o espaço diante de nossos narizes para fazer disso o melhor que pudermos. Se tivermos cuidado e sorte – sobretudo, talvez, sorte – quem sabe, dê certo? Não é fácil. Tampouco impossível. E se existe essa centelha quase palpável, essa esperança intensa que chamamos de amor, então não há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborrachemos. Talvez saiamos voando. Não temos como saber se vai dar certo – o verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão –, mas a vida não tem nenhum sentido se não for para dar o salto.

sexta-feira, março 14, 2008

Almost

Foram incontáveis quase-romances, quase-poemas, quase-canções... Até hoje. A minha perturbação emerge desses tantos "por poucos". Dessa ausência de "porquês". Desencontros, desencontros.
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E o que seria de mim sem o Chico, a Elis e o Tom? E o que seriam dessas sextas-feiras descoloridas sem o entardecer nostálgico? O que seria da minha estafa sem a mesa bamba para apoiar os cotovelos? Quem arrancaria meus sorrisos plenos se não fosse o dono do par de tênis sujos brincando com meus pés debaixo da mesa?
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Não haveria plenitude nem pluralidade nos meus dias corriqueiros se não fossem as piadas velhas, os encontros casuais e todos aqueles planos banais. "Dessa vez, me leva contigo". Ainda que me incomodem os murmúrios e as respostas nebulosas, aprecio a instabilidade. Invejo quem a tem, quem é dela serviçal. Sou herdeira da monotonia, do verbalizado, do fadigoso.
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Contudo, comigo não há meio-termo. Escrevo nas entrelinhas e envio mensagens - extraviadas. Fabrico ilusões e fantasias para todos os gostos e bolsos. Parcelo-me, também. Tenha-me inteiramente de uma só vez, pague aos poucos. Não anime-se: gosto de reciprocidade. A condição é uma só: não aceito devoluções.
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Oito ou oitenta, amigo.

domingo, fevereiro 10, 2008

Getting Closer

Amor. O que é amor para você? O que pode chegar perto de ser? Amor não é algo que se retribua de imediato, só para ser gentil. Amor, com base em sua vaga experiência, é ansear por saber todos os detalhes que ela, normalmente, não saberia. Conhecer a marca da pasta de dente, do shampoo, do perfume... Questões de Publicidade. Conhecer o cardápio e como ela gosta do suco batido com a casca... Questões de Gastronomia. Conhecer os livros que lê, os filmes que assiste e o caderno onde tudo está datado... Questões de Jornalismo. Conhecer o gosto pelos cantos perpendiculares, pelas salas grandes e vazias, pelas portas abertas... Questões de Arquitetura. Conhecer os museus que visita, a história preferida e bendita... Questões de Museologia.
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Provar do beijo e da luta. Provar das tardes que a faltam. Provar que ela o merece.... Que nunca a esquece, que chegou para ficar. Provar que enquanto ela sobrevivia, você com ela sonhava e, ainda que sem conhecê-la, a esperava chegar.
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Ela cansou de correr. De plantar e nunca colher. Ela quer uma vida modesta, vezenquando uma festa para você não se entediar. Quer tê-lo em casa e assim, um motivo para casa voltar. Ela sempre amou a cidade em que viveu; foi a cidade que dela se esqueceu.
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Se depois de tudo que leu o medo ainda for o melhor companheiro seu, conclua: tê-la conhecido foi um grande erro. She's bad news. Depois siga toda vida com a limitação de quem não sabe se perder para encontrar o que ainda não fora descoberto.
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Na vida dela houveram momentos em que ela poderia ter feito algo mais. Quando o conheceu se deu conta de que não o desejava para ser mais um destes momentos. E você, o que ela é para você? O que pode chegar perto de ser?

É tão estranho. Devemos ter passado um pelo outro milhares de vezes. Ou não. Eu nunca passei por você... Eu teria parado. Eu teria parado, sim. Eu jamais continuaria andando.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Tarô

Caminhava sozinha na madrugada do primeiro dia de 2008 quando pisou em um pedaço sujo de papel, lado inverso de um desses panfletos pregados nos postes da cidade. Panfleto esse insistente, já que não desgrudava da sola de seu pé descalço. Na calçada sentou-se e tomou aquele insignificante pedaço de papel para si - costuma encaixotar momentos. Da bolsa tirou a caneta do ano passado, e tentou escrever sentimentos, imagens.
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"Fogos explodem no manto negro do céu, em uma constelação de estrelas. Enchem minha face pálida e minha alma descolorida de alegria. A multidão pula, dança e canta. O branco impera. Risos escandalosos e palavras cordiais são a trilha sonora que pode ser ouvida daqui, da beira da estrada.
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Ela, aquela mesma de todos os anos novos e velhos, fecha os olhos e beija a palma das mãos com o zêlo e o carinho de quem tem muito amor para dar. Então promete para si mesma: 'Vou cuidar de você. Ninguém levará pedaços tão bonitos de você novamente, no more souvenirs'.
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Nada mais de conflitos internos, de crises existenciais. Nada mais de wasted tears, wasted years. Nada mais desse corpinho de dezesseis com essa antipatia de setenta e três. Nada mais de procura, de espera, de stalking.
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A vida é tão intensa, tão imensa; ora, pare de lamentar. A vida é essa infinita highway. Não é algo que se compre, que se possa barganhar. E finalmente ela percebe: sua procura, por si só, já é o que ela quer encontrar - quando alguém chamar seu nome".
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Guardou a caneta. Ao dobrar o papel notou no canto direito da propaganda de um tarô, letras grandes em tom de lilás: "O destino está à espera!". Sorriu um daqueles sorrisos incrédulos e calçou suas havaianas anatômicas. Nada mais cruzou seu caminho desde então.
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Quanto ao futuro, não façamos reservas.

sábado, fevereiro 02, 2008

Não é amor

Me desnude. Me tire do sério. Bagunce o meu lençol de menina, o meu senso desatina. Me provoque. Decore cada traço meu, é tudo seu. Me divirta. Me ame e admita. Me amanheça, me entardeça, me anoiteça. Me roube a castidade. Não tenho problemas em expor a vaidade enquanto o que eu calar for a verdade. Me ligue. Sinta saudades. Diga que já não vê a hora. Venha sem demora. Me careça. Me enlouqueça. Toque que eu danço, peça que eu canto. Faça do ontem o dia pior. Você não é amor, é melhor.


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"Eu ainda me lembro bem: teus dedos perguntavam para minha blusa, se meu corpo acolheria um delinqüente".

domingo, novembro 25, 2007

Into Me

Algumas poucas vezes, como hoje, passo boa parte de uma noite mal iluminada na varanda, encarando tudo que já fui um dia. É algo involuntário. O que chamamos de coincidência surge e uma música preenche o espaço vazio de outrora, no meio do turbilhão que eu construi para me ocupar. Não posso dizer que é saudade, porque não quero de volta - mesmo que volte por boa vontade.
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Talvez eu devesse resumir o meu pensamento àquelas folhas avulsas em branco sobre a mesa. Mas não há do que fugir ou lamentar. Hoje sei que nunca houve. Contudo, o acústico dessa música de duas histórias - uma minha, outra dele - tem a beleza do ontem, e do ontem a inércia. Gosto de ficar lá, com aquele céu de lágrimas que não quer chover. Porque também somos o que perdemos.
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E então eu volto. Volto para quem me tem agora, por merecimento de procurar e direito de esconder. Volto também por merecer essa reciprocidade de amor, de valor, de cuidado. Mas sempre volto com a sensação de ter me afogado na xícara de chá, ou me jogado telhado abaixo. É aí que eu sempre acordo, com beijos e braços exaustos de me carregarem por todos os meus abismos, de volta para casa.
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Tied up and twisted, the way I'd like to be
For you, for me, come crash into me, baby

domingo, novembro 18, 2007

Saudade, um beijo

Primeiramente, peço perdão aos meus devaneios pela ausência. O mundo "real" tem levado de mim todo o meu tempo disponível. É verdade, admito, que passei a confiar e preferir caneta e papel. Prefiro, também, acreditar no que é passível de se concretizar - mesmo aqui, além dos muros.
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Ah, não escondo o meu desejo de voltar. Minha profissão, de uns tempos para cá, tem sido escutar as lamentações, os aprendizados e a minuciosa descrição da vida de quem já viu de tudo neste mundo - ou, pelo menos, pensa assim.
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Mas estou aqui tagarelando, na tentativa desesperada de descrever esses últimos meses. Falando aleatoriamente? "Aprecio a idéia dessas adoráveis surpresas no final da noite", e sweet drems. Mas basta. O resto fica para depois, para o espaço que sobrar.
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Encarando o doloroso arquivo deste embobrecido e abandonado blog, me deparei com um texto escrito há algum tempo, mas não publicado. O fato foi de uma estranheza aguda, afinal, os textos mal escritos, mal editados e até mesmo aqueles que desnudam excessivamente a minha pessoa, são deletados. Me apavoram esses textos em que o pensamento se perde para todo sempre, esses textos interminados. Porém, ao terminar de ler tal raridade, ficou suficientemente claro o motivo do ceticismo no publicar. Surgiu-me, então, que esse texto não me pertence, não mais. É por isso que o liberto, para que se encaixe em quem o encontre, já não me importa quem seja.
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Dias sim, dias não
Desfiz o que há por dentro e deixei a paisagem correr. Perguntei a toda pouca sensatez que já tive um dia "Esqueci? Posso enfim...?". Ela me deixou nessa reticência, me refiz quase inteira. O sol atravessava a janela, acolhedor; fechei os olhos por um instante, em completa entrega.

Me senti confortável no terceiro banco do lado direito de todos os dias, e suspirei longamente, tão orgulhosa e satisfeita. O tempo traz milhões de coisas, mas também leva. Ah, que menina tola. Pensei tanto em como esquecer que, num dia como outro qualquer, "Não é tanto, não dói mais.".

De pensar que eu quase abandonei os tabuleiros quando ele me pediu para deixar de lado. É isso que eu faço, eu transformo quem amo no que eu preciso. Nem que seja para deixar na estante, ao lado dos livros que o tempo cobre de pó.

Posso enfim continuar - e vou.
Não te amo mais, adeus.

domingo, novembro 11, 2007

Seja o que for.
Mas seja inteiro, e seja o seu melhor.

domingo, novembro 04, 2007

Bilhete

Precisava escrever algo que traduzisse poeticamente o que faz sua pulsação acelerada quase gangrenar a ponta de seus dedos. Precisava fazê-lo em cinco minutos. Três agora. Apenas dois, então.
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Viver leva tempo. Cansada estava dessa vida tão heavy, dessa falta de temática e opinião. Cansada da morte certa e da vida desperdiçada. E não pense em voltar para corrigir o que já foi dito.
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Satisfação é a nova felicidade. Viver é uma questão moral. E pronto. Se sua vida dependesse destes cinco minutos, bom, você teria que ligar para a família e os amigos, depois funerária e floricultura. Dois minutos atrasada, ela disse muito e nada do que queria dizer.
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Tentaremos novamente, claro. Não se apegue ao teclado, ou aos dedos gangrenados. Não se apegue a nada que não puder largar em trinta segundos. Eis um novo desafio.
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Façamos assim:
Hoje anseava por dizer, que fez as unhas só para te receber. Que tomou chuva e alguma dose de coragem só para fazê-lo compreender, que ela o ama demais para deixá-lo se arrepender.