quinta-feira, junho 19, 2008

Mutante Mulher

A esperança que restou encontra abrigo e abraço na minha convicção de que, mais cedo ou mais tarde, inquestionáveis verdades serão estas descaradas mentiras que eu me conto diariamente. Já não tenho religião nem identidade. Sou nômade. Já não me alcanço de tão longe que fui. Já não conto as horas deste vôo sem escalas.
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But don't you worry.
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O meu suposto sofrimento é crônico, e é só meu. O meu egoísmo é tão abrangente que não deixa esse sentimento se esvair. É meu. O meu amor, o meu ódio e a minha loucura... São todos meus. E o que é meu eu não divido. Nem mesmo com os que me despertam tais sentimentos, tais sensações.
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But don't you dare.
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A minha instabilidade é o meu veneno e o meu antídoto. Me reconstruo. Me reinvento. Sou o pior e o melhor que há no mundo, assim sem poesia. Sou sonho em carne viva. Não me recomendaria.





Me sou conveniente.
Me sou suficiente, e só.

domingo, junho 15, 2008

Dia dos Namorados

Depois de tentar se distrair assistindo a um filme no cinema, fazendo compras e suando na academia (onde só haviam casais estupendamente apaixonados, de todos os tipos: emos, homos, heteros, etc.), ela resolveu afogar suas mágoas - e o dia dos namorados, claro - em uma xícara de café expresso, na mesma mesa para dois, da mesma padaria, da mesma esquina de todas as sem-saídas. O mais irônico, pensou, é que não importa quantos relacionamentos aparentemente bem sucedidos ela tenha no decorrer do ano, não houve um só dia dos namorados em que ela pôde comemorar algo mais do que seu sucesso em não conseguir manter uma relação até o mês de junho.
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O ambiente, como você pode imaginar, servia de abrigo a outros desafortunados solteiros. Uma meia-dúzia de mesas para dois ocupadas por apenas uma pobre alma. Se sentiu engraçada quando se deu conta disso. "Estou ficando experiente em dialogar com cadeiras vazias", voltando seu olhar para a xícara de café. "Deus queira que eu não seja a única" sorriu em voz alta e ergueu os olhos, ainda com um sorriso de auto-piedade esboçado em seu rosto corado pelo frio que fazia.
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Exatamente às doze horas, bem à sua frente, estava um outro coffe addicted a exercer o mesmo árduo trabalho de adoçar o café girando a pequena colher de plástico em sua borda, o mesmo a que ela se dedicava naquele instante. Ele sorriu de volta, mesmo sem encontrar a graça da colher de plástico, e tinha tantos dentes na boca, lábios levemente avermelhados e tão lindamente desenhados, que ela continuou sorrindo sem notar. Ele era uma mistura de Strokes com Oasis, impossível de criticar. Caras tristes com guitarras, o tipo dela. A barba estava por fazer, o cabelo desarrumado - e poderia ser melhor? -, convenientemente sozinho... "Marry me, babe", ela pensou.
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Então ele disse "Oi", com um aceno ligeiro e um sorriso longo. Ela respondeu "Oi", rindo nervosamente e desviando o olhar. "Meu nome é Guilherme" ele disse, cruzando os braços sobre a mesa. "O meu é Gabriela" ela respondeu, colocando mais açúcar no café. "Café amargo?" ele perguntou. "Dia dos Namorados", ela respondeu com um sorriso amarelo. "Eu ia perguntar se o seu namorado está atrasado, mas eu gostaria tanto que você não tivesse um", ele disse descruzando os braços e relaxando na cadeira, fitando-a com aqueles olhos pequenos mas tão vivos. Nesse instante ela fez-se defensiva e chegou a pensar em ir embora, mas lembrou-se de quem a esperava em casa: seu vira-lata Bruce. Ouviu uma voz interna dizendo "Pare de ter medo de viver, mulher".
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"Então você deve estar com sorte hoje"- pasme, ela respondeu ao flerte. Ele sorriu novamente aquele sorriso de tantos, tantos dentes. "Eu posso...?" ele perguntou, incerto da resposta que viria, apontando para a cadeira vazia na mesa dela. "Por favor" ela respondeu desfazendo-se da insegurança. Ele levantou-se e atravessou o abismo que os separava. Ele vestia uma calça jeans, um moleton cinza e um all star surrado - maior abandonado.
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Eles se olharam em silêncio por um instante, depois começaram com o básico: o que gosta de fazer, de ouvir, de ler, de assistir. "The O.C., não? Tenho a primeira temporada", ele disse. "Alguma cena favorita?", ela deu continuidade. "Primeiro capítulo da primeira temporada, eu acho, primeiro encontro de Ryan e Marissa". "Ah, sim! Uma das minhas favoritas também", ela comentou e, um segundo depois, decidiu brincar com a intertextualidade: "Se eu sou Marissa, quem é você?" ela perguntou fitando-o desconfiadamente. Ele leu seus pensamentos, como já havia feito tópicos antes e, levando a colher de plástico ao canto direito da boca, com os cabelos caindo nos olhos, ele respondeu: "Quem quiser que eu seja". Ambos gargalharam e sorveram as horas daquele encontro inesperado.
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O irônico era que, a cada palavra dita e informação trocada, tudo que podia ser comprovado era o quanto eles eram parecidos. Em sorte e azar, em filme e música. E como eram singulares em seus respectivos mundos, agora colidindo sem querer, e querendo tanto. Ininterruptamente, sem poder evitar. Ambos atraídos pela emoção que encontravam um no outro e que, insaciavelmente, podiam dividir.
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Somehow we've find
You and I have collide

sábado, junho 07, 2008

Afraid so

Ainda me lembro de quando tinha meus treze ou catorze anos e atravessava madrugadas ouvindo a mesma música repetidamente, e pensava que se eu pudesse escrever algo bonito, honesto e verdadeiro, alguém me amasse. Eu também canso de ser piegas e "a joke of a romantic", mas era como eu me sentia. E, surpreendentemente, como me sinto neste instante.
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Ao lembrar desses tempos, é inevitável não lembrar do meu primeiro amor. Deus! Quantos filmes, quantas linhas mal traçadas, quantas músicas, quanta intensidade. Gostaria de poder falar sobre ele, sobre o que ele gostava de fazer além de me extasiar, pequenos gestos, peculiaridades; mas não consigo. Não consigo porque, na verdade, o conheci muito pouco. Eu pensava o conhecer integralmente, mas a verdade é que ele não ficou tempo suficiente na minha vida. Não tenho do que reclamar. Com a mesma intensidade que veio (perseguição, ciúme virtual, declarações desesperadas por MSN), também foi (dias sem comer, dias sem dormir, semanas para eu me adaptar ao vazio).
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Depois dele vieram paixões menores, e ainda assim avassaladoras. Duradouras foram as que duraram pouco mais de um mês. De repente, me acostumei a não sentir nada. Escrevia displicentemente, assim, para ninguém, afim de não me diagnosticar um enorme vazio coberto por uma tênue camada de piadas inteligentes, humor irônico e frases decoradas. Foi aí em que eu descobri a efemeridade das coisas.
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E nesta fila estafante do correio eu permaneço. Nenhuma destas faces desconhecidas parece ter segredos para mim. Por quê, Ó Pai? Por que não sentir nada é tão mais fácil, tão racional, tão auto-sustentável? Por que esse misto de sensações indescritíveis chamado amor soa ridículo, mas ridículo mesmo, quando sai da minha boca? Por que eu não consigo acreditar em mais nada, em ninguém? Por que pentear o cabelo, beber água, sonhar - por Deus, até mesmo sonhar - se tornaram coisas tão banais?
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Uma vez me disseram que depois dos dezoito anos eu iria querer voltar no tempo. Bom, nem precisei chegar lá para me dar conta de que fiz tudo errado. Meu Deus, eu fiz tudo errado. Eu não me reconheço, não me encontro. Só sinto um pouco de paz quando deitada de barriga para cima na calçada, conto estrelas. Fingindo não morrer de medo da imensidão azul-marinho diante dos meus olhos. E peço fervorosamente, murmuro, para que aquela imensidão se torne mar e me engula. É assim que me sinto todo o tempo, fingindo não morrer de medo da banalidade das coisas, da efemeridade dos bons momentos, da invalidade dos velhos tempos.
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Saio correndo do caixa 3 enquanto a apática atendente me substitui: "Próximo!" Corro pelas calçadas, atravesso a rua. Um casal de idosos sorri para mim, eu sorrio um sorriso desesperado. E tenho medo, tanto medo. Então começa a chover e eu agradeço, agradeço rindo descontroladamente. Porque a chuva mascara meus olhos marejados, se mistura às lágrimas que caem, desesperadas, querendo encontrar o chão. Abro um pouco os braços e fecho os olhos, me entrego. A chuva me fragmenta, e como estas mais honestas palavras já escritas, me carregam mundo afora. Mas ainda mais importante: me levam para um lugar desconhecido, me levam para longe de mim. Isso me acalma. E eu sigo em passos lentos, despedindo de mais um pesadelo que me pega de jeito, sem jeito e de peito aberto.

quinta-feira, maio 22, 2008

Epifania Pálida

Hoje eu acordei querendo pensar branco. Pensar em azulejo de cozinha. Azulejo de cozinha, coisa banal. Só queria pensar no azulejo branco, naquelas dezenas de azulejos brancos à minha frente. E pensar no café. Café quente, quente. Descendo pela minha garganta. Eu sentia o café quente descendo pela minha garganta e sentia quando ele encontrava morada no meu estômago. Batia no estômago e queimava, ardia! Mas quando a quentura do café fazia doer, outro gole vinha logo em seguida e queimava também. E eu me esquecia do que ardia por dentro, porque ardia por inteiro. E enquanto ardia, o azulejo permanecia branco. Branco e calmo - calmaria puritana corrompível! Sim. Corrompível. Pensava branco, era banal. Eu adorava pensar branco e sentir ferver. Adorava. Adorei.
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Saí de casa sem vontade, não muito à vontade. Saí de casa e só. Mas não só. Saí de casa e a blusa subia, a saia descia. Roupa maldita e infernal! Quis ficar nua. Quis ficar do avesso. Eu quis ficar nua e do avesso e mostrar ao mundo como por dentro ardia e doía e queimava. Eu quis, mas foi um querer rápido de quem não sabe ousar. Eu quis, mas não pude. Não podia nem comigo, que dirá com o mundo. Ponderava. Ponderei.
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Restaurante. Entrei no restaurante, tímida. A roupa incomodava e nas unhas dos pés o esmalte estava pela metade. Ninguém sabia, ninguém notava, mas me incomodava. Pensa branco, mulher. Pensa branco. Primeiro a salada. Enchi o prato de brócolis e um molho que odiei, mas não fazia mal: por dentro ardia e queimava, e do molho eu não gostava. Molho. Pra quê molho? Coisa banal. O maldito molho me estufava. É, estufava. Estufei.
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Carro, rodovia, trânsito. Maldito trânsito! Acelera, acelera! Passa por cima que eu quero chegar do lado de lá! Mas não acelerava. Emputecida eu estava, mas não sou de demonstrar. Farol aberto. Caminhos abertos. Portas abertas. Tão bonito dizer "Minha porta estará sempre aberta pra você!", mesmo sendo mentira. Mentira, coisa tão banal. Tão divertida e ilegal. Normal. Tudo que eu gosto engorda, é ilegal ou imoral. Longe eu estava, viajava. Viajei.
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"Quanto tempo! Me dá um abraço aqui". As escadas eu subi sem saber o que dizer. Mas disse. Estranho, não lembro o que disse. Perdoa, não era o que eu queria dizer. Ah, sentei. Tentei me mostrar à vontade. Mas não tinha vontade. Fuck! De repente surgiu vontade de dizer uma porção de palavrão. Por que eu não posso ser, de verdade, assim como me mostro, de bem com a vida? Pensa branco, pensa branco. Oh, motherfucker. Me distraíram. Na hora eu esqueci, mas obrigada. Obrigada por me distrair, eu estava para explodir. Obrigada. Me falaram, uma porção coisas aleatórias que eu nem precisei perguntar. Obrigada. Com ela eu fiquei extasiada. Porra, também sou assim! Obrigada. Agora eu posso sair por aí sendo eu mesma, obrigada. Não tenho regras, não tenho rédeas. Vou cavalgar! Não me procure, não me espere. Longe eu sempre vou estar. Meretriz no Alabama ou mulher-bomba em Bagdá. Não vou ficar. Não ficava. Não fiquei.
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Hoje eu acordei querendo pensar branco. De um branco sem perturbações. Hoje eu vou dormir refletindo todas as perturbações do mundo, todas as cores. Perturbada, feliz e ainda extasiada. Eu mesma, eu só. Mas não só. Eu do meu lado, aventureira. Muito louca, de um louco banal. Velho mundo banal. Mas ainda meu, meu mundo banal. Do mundo eu quero o que vier. Quero viver. E viverei.

segunda-feira, maio 12, 2008

< Digitar uma mensagem pessoal >

Creio não saber o que escrever, porque já não sinto nada. Assim, inconsistente. Não é tristeza, nem alegria. É o silêncio do meu desespero.
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Eu gritaria, mas não quero por antecipação alardear o que está à minha espera. Tem que estar. Eu preciso que esteja. Para que o mundo volte a ser canção barulhenta e intensa, daquela intensidade que eu costumava sentir.
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Creio não saber dizer através de qual ferida esse silêncio tomou conta de mim. Mas aviso: se precisar, me estilhaço inteira.

sexta-feira, abril 04, 2008

Confissão

Já reparou em como qualquer adjetivo benévolo - bonito, carinhoso, amável - passa a tomar forma e obter um nome dito pausadamente, assim, no diminutivo quando amamos? Até mesmo os substantivos como amor, boca e sorriso tornam-se tão característicos da pessoa amada que já não existem coincidências - só destino.
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Nesse estágio, nesse pico, o amor sentido é tão substancioso que cresce em desproporção ao amor recebido. É então que o sentimento ultrapassa todas as camadas de pele do corpo, ultrapassa o tecido, sai pela boca, pelos olhos e ouvidos. Não é suor, mas é salgado, talvez amargo, pois estamos fartos dessa doçura dentro de nós, dessa nobreza, dessa paz.
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Eu, no caso, tenho amor preso na garganta. Eu já não canto: declamo. Os agudos desafinados saem suaves. Também escrevo, compulsivamente. Chega amor nos meus pulsos e músculos, e mãos. Já não posso dizer que sou dona desses suspeitos sorrisos despercebidos, dessa desatenção, desses suspiros. Me aprisiona dentro do peito, meu bem, que eu sou culpada, confesso.

segunda-feira, março 31, 2008

À Espera

Ultimamente, tenho levado horas para dormir e já não sei o que é correto ou se sou capaz de inibir esse amor. Passo a noite a velar esse sentimento indubitável. Não creio precisar de comprimidos, amor não é doença. Você, amor, é um bem imensurável mesmo quando mal me faz. Me cega e descompassa, e, ainda assim, me torna ilimitada.
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A verdade é: me acostumei com você, com seu jeito de ser. Me entorpece com essa independência heródica de mim. Minto se disser que não prefiro assim. Quero-lhe tão bem, urgentemente. Porém indago se desejo-lhe apenas pelo prazer de variar e tornar meus dias corriqueiros e descoloridos um pouco melhores - ou muito melhores. Sou egoísta. Sempre tratei de amor como algo palpável, perecível, um entretenimento qualquer. Coisa de fera ferida? Talvez. O que é o amor senão aquele que fere e jamais cicatriza permanentemente?
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Mas o que há de errado em ser egoísta? Talvez eu lhe ame porque você não precisa de mim. Talvez eu precise mesmo de você, para me fazer querer ser uma pessoa melhor. Talvez milhões de coisas; talvez nenhuma dessas.
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À espera de algo que não sei ao certo o que é, eu permaneço. Madrugada adentro, me perdendo nos lençóis listrados. Com a mesma xícara de café de todas as longas esperas, na janela de todos os outonos, a contar folhas caídas. Mesmo os corações inóspitos necessitam de ritmo e rima - o faça com maestria, meu bem. Deixe os arrependimentos para depois, e vem.

domingo, março 16, 2008

O Salto, por Antonio Prata

A gente não tem como saber se vai dar certo. Talvez, lá adiante, haja uma mesa num restaurante, onde você mexerá o suco com o canudo, enquanto eu quebro uns palitos sobre o prato – pequenas atividades às quais nos dedicaremos com inútil afinco, adiando o momento de dizer o que deve ser dito. Talvez, lá adiante: mas entre o silêncio que pode estar nos esperando então e o presente – você acabou de sair da minha casa, seu cheiro ainda surge vez ou outra pelo quarto –, quem sabe não seremos felizes? Entre a concretude do beijo de cinco minutos atrás e a premonição do canudo girando no copo pode caber uma vida inteira. Ou duas. Passos improvisados de tango e risadas, no corredor do meu apartamento. Uma festa cheia de amigos queridos, celebrando alguma coisa que não saberemos direito o que é, mas que deve ser celebrada. Abraços, borrachudos, a primeira visão de seu necessaire (para que tanto creme, meu Deus?!), respirações ofegantes, camarões, cafunés, banhos de mar – você me agarrando com as pernas e tapando o nariz, enquanto subimos e descemos com as ondas – mãos dadas no cinema, uma poltrona verde e gorda comprada num antiquário, um tatu bola na grama de um sítio, algumas cidades domesticadas sob nossos pés, postais pregados com tachinhas no mural da cozinha e garrafas vazias num canto da área de serviço. Então, numa manhã, enquanto leio o jornal, te verei escovando os dentes e andando pela casa, dessa maneira aplicada e displicente que você tem de escovar os dentes e andar ao mesmo tempo e saberei, com a grandiosa certeza que surge das pequenas descobertas, que sou feliz. Talvez, céus nublados e pancadas esparsas nos esperem mais adiante. Silêncios onde deveria haver palavras, palavras onde poderia haver carinho, batidas de frente, gritos até. Depois faremos as pazes. Ou não? Tudo que sabemos agora é que eu te quero, você me quer e temos todo o tempo e o espaço diante de nossos narizes para fazer disso o melhor que pudermos. Se tivermos cuidado e sorte – sobretudo, talvez, sorte – quem sabe, dê certo? Não é fácil. Tampouco impossível. E se existe essa centelha quase palpável, essa esperança intensa que chamamos de amor, então não há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborrachemos. Talvez saiamos voando. Não temos como saber se vai dar certo – o verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão –, mas a vida não tem nenhum sentido se não for para dar o salto.

sexta-feira, março 14, 2008

Almost

Foram incontáveis quase-romances, quase-poemas, quase-canções... Até hoje. A minha perturbação emerge desses tantos "por poucos". Dessa ausência de "porquês". Desencontros, desencontros.
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E o que seria de mim sem o Chico, a Elis e o Tom? E o que seriam dessas sextas-feiras descoloridas sem o entardecer nostálgico? O que seria da minha estafa sem a mesa bamba para apoiar os cotovelos? Quem arrancaria meus sorrisos plenos se não fosse o dono do par de tênis sujos brincando com meus pés debaixo da mesa?
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Não haveria plenitude nem pluralidade nos meus dias corriqueiros se não fossem as piadas velhas, os encontros casuais e todos aqueles planos banais. "Dessa vez, me leva contigo". Ainda que me incomodem os murmúrios e as respostas nebulosas, aprecio a instabilidade. Invejo quem a tem, quem é dela serviçal. Sou herdeira da monotonia, do verbalizado, do fadigoso.
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Contudo, comigo não há meio-termo. Escrevo nas entrelinhas e envio mensagens - extraviadas. Fabrico ilusões e fantasias para todos os gostos e bolsos. Parcelo-me, também. Tenha-me inteiramente de uma só vez, pague aos poucos. Não anime-se: gosto de reciprocidade. A condição é uma só: não aceito devoluções.
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Oito ou oitenta, amigo.

domingo, fevereiro 10, 2008

Getting Closer

Amor. O que é amor para você? O que pode chegar perto de ser? Amor não é algo que se retribua de imediato, só para ser gentil. Amor, com base em sua vaga experiência, é ansear por saber todos os detalhes que ela, normalmente, não saberia. Conhecer a marca da pasta de dente, do shampoo, do perfume... Questões de Publicidade. Conhecer o cardápio e como ela gosta do suco batido com a casca... Questões de Gastronomia. Conhecer os livros que lê, os filmes que assiste e o caderno onde tudo está datado... Questões de Jornalismo. Conhecer o gosto pelos cantos perpendiculares, pelas salas grandes e vazias, pelas portas abertas... Questões de Arquitetura. Conhecer os museus que visita, a história preferida e bendita... Questões de Museologia.
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Provar do beijo e da luta. Provar das tardes que a faltam. Provar que ela o merece.... Que nunca a esquece, que chegou para ficar. Provar que enquanto ela sobrevivia, você com ela sonhava e, ainda que sem conhecê-la, a esperava chegar.
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Ela cansou de correr. De plantar e nunca colher. Ela quer uma vida modesta, vezenquando uma festa para você não se entediar. Quer tê-lo em casa e assim, um motivo para casa voltar. Ela sempre amou a cidade em que viveu; foi a cidade que dela se esqueceu.
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Se depois de tudo que leu o medo ainda for o melhor companheiro seu, conclua: tê-la conhecido foi um grande erro. She's bad news. Depois siga toda vida com a limitação de quem não sabe se perder para encontrar o que ainda não fora descoberto.
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Na vida dela houveram momentos em que ela poderia ter feito algo mais. Quando o conheceu se deu conta de que não o desejava para ser mais um destes momentos. E você, o que ela é para você? O que pode chegar perto de ser?

É tão estranho. Devemos ter passado um pelo outro milhares de vezes. Ou não. Eu nunca passei por você... Eu teria parado. Eu teria parado, sim. Eu jamais continuaria andando.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Tarô

Caminhava sozinha na madrugada do primeiro dia de 2008 quando pisou em um pedaço sujo de papel, lado inverso de um desses panfletos pregados nos postes da cidade. Panfleto esse insistente, já que não desgrudava da sola de seu pé descalço. Na calçada sentou-se e tomou aquele insignificante pedaço de papel para si - costuma encaixotar momentos. Da bolsa tirou a caneta do ano passado, e tentou escrever sentimentos, imagens.
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"Fogos explodem no manto negro do céu, em uma constelação de estrelas. Enchem minha face pálida e minha alma descolorida de alegria. A multidão pula, dança e canta. O branco impera. Risos escandalosos e palavras cordiais são a trilha sonora que pode ser ouvida daqui, da beira da estrada.
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Ela, aquela mesma de todos os anos novos e velhos, fecha os olhos e beija a palma das mãos com o zêlo e o carinho de quem tem muito amor para dar. Então promete para si mesma: 'Vou cuidar de você. Ninguém levará pedaços tão bonitos de você novamente, no more souvenirs'.
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Nada mais de conflitos internos, de crises existenciais. Nada mais de wasted tears, wasted years. Nada mais desse corpinho de dezesseis com essa antipatia de setenta e três. Nada mais de procura, de espera, de stalking.
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A vida é tão intensa, tão imensa; ora, pare de lamentar. A vida é essa infinita highway. Não é algo que se compre, que se possa barganhar. E finalmente ela percebe: sua procura, por si só, já é o que ela quer encontrar - quando alguém chamar seu nome".
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Guardou a caneta. Ao dobrar o papel notou no canto direito da propaganda de um tarô, letras grandes em tom de lilás: "O destino está à espera!". Sorriu um daqueles sorrisos incrédulos e calçou suas havaianas anatômicas. Nada mais cruzou seu caminho desde então.
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Quanto ao futuro, não façamos reservas.

sábado, fevereiro 02, 2008

Não é amor

Me desnude. Me tire do sério. Bagunce o meu lençol de menina, o meu senso desatina. Me provoque. Decore cada traço meu, é tudo seu. Me divirta. Me ame e admita. Me amanheça, me entardeça, me anoiteça. Me roube a castidade. Não tenho problemas em expor a vaidade enquanto o que eu calar for a verdade. Me ligue. Sinta saudades. Diga que já não vê a hora. Venha sem demora. Me careça. Me enlouqueça. Toque que eu danço, peça que eu canto. Faça do ontem o dia pior. Você não é amor, é melhor.


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"Eu ainda me lembro bem: teus dedos perguntavam para minha blusa, se meu corpo acolheria um delinqüente".

domingo, novembro 25, 2007

Into Me

Algumas poucas vezes, como hoje, passo boa parte de uma noite mal iluminada na varanda, encarando tudo que já fui um dia. É algo involuntário. O que chamamos de coincidência surge e uma música preenche o espaço vazio de outrora, no meio do turbilhão que eu construi para me ocupar. Não posso dizer que é saudade, porque não quero de volta - mesmo que volte por boa vontade.
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Talvez eu devesse resumir o meu pensamento àquelas folhas avulsas em branco sobre a mesa. Mas não há do que fugir ou lamentar. Hoje sei que nunca houve. Contudo, o acústico dessa música de duas histórias - uma minha, outra dele - tem a beleza do ontem, e do ontem a inércia. Gosto de ficar lá, com aquele céu de lágrimas que não quer chover. Porque também somos o que perdemos.
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E então eu volto. Volto para quem me tem agora, por merecimento de procurar e direito de esconder. Volto também por merecer essa reciprocidade de amor, de valor, de cuidado. Mas sempre volto com a sensação de ter me afogado na xícara de chá, ou me jogado telhado abaixo. É aí que eu sempre acordo, com beijos e braços exaustos de me carregarem por todos os meus abismos, de volta para casa.
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Tied up and twisted, the way I'd like to be
For you, for me, come crash into me, baby

domingo, novembro 18, 2007

Saudade, um beijo

Primeiramente, peço perdão aos meus devaneios pela ausência. O mundo "real" tem levado de mim todo o meu tempo disponível. É verdade, admito, que passei a confiar e preferir caneta e papel. Prefiro, também, acreditar no que é passível de se concretizar - mesmo aqui, além dos muros.
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Ah, não escondo o meu desejo de voltar. Minha profissão, de uns tempos para cá, tem sido escutar as lamentações, os aprendizados e a minuciosa descrição da vida de quem já viu de tudo neste mundo - ou, pelo menos, pensa assim.
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Mas estou aqui tagarelando, na tentativa desesperada de descrever esses últimos meses. Falando aleatoriamente? "Aprecio a idéia dessas adoráveis surpresas no final da noite", e sweet drems. Mas basta. O resto fica para depois, para o espaço que sobrar.
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Encarando o doloroso arquivo deste embobrecido e abandonado blog, me deparei com um texto escrito há algum tempo, mas não publicado. O fato foi de uma estranheza aguda, afinal, os textos mal escritos, mal editados e até mesmo aqueles que desnudam excessivamente a minha pessoa, são deletados. Me apavoram esses textos em que o pensamento se perde para todo sempre, esses textos interminados. Porém, ao terminar de ler tal raridade, ficou suficientemente claro o motivo do ceticismo no publicar. Surgiu-me, então, que esse texto não me pertence, não mais. É por isso que o liberto, para que se encaixe em quem o encontre, já não me importa quem seja.
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Dias sim, dias não
Desfiz o que há por dentro e deixei a paisagem correr. Perguntei a toda pouca sensatez que já tive um dia "Esqueci? Posso enfim...?". Ela me deixou nessa reticência, me refiz quase inteira. O sol atravessava a janela, acolhedor; fechei os olhos por um instante, em completa entrega.

Me senti confortável no terceiro banco do lado direito de todos os dias, e suspirei longamente, tão orgulhosa e satisfeita. O tempo traz milhões de coisas, mas também leva. Ah, que menina tola. Pensei tanto em como esquecer que, num dia como outro qualquer, "Não é tanto, não dói mais.".

De pensar que eu quase abandonei os tabuleiros quando ele me pediu para deixar de lado. É isso que eu faço, eu transformo quem amo no que eu preciso. Nem que seja para deixar na estante, ao lado dos livros que o tempo cobre de pó.

Posso enfim continuar - e vou.
Não te amo mais, adeus.

domingo, novembro 11, 2007

Seja o que for.
Mas seja inteiro, e seja o seu melhor.

domingo, novembro 04, 2007

Bilhete

Precisava escrever algo que traduzisse poeticamente o que faz sua pulsação acelerada quase gangrenar a ponta de seus dedos. Precisava fazê-lo em cinco minutos. Três agora. Apenas dois, então.
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Viver leva tempo. Cansada estava dessa vida tão heavy, dessa falta de temática e opinião. Cansada da morte certa e da vida desperdiçada. E não pense em voltar para corrigir o que já foi dito.
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Satisfação é a nova felicidade. Viver é uma questão moral. E pronto. Se sua vida dependesse destes cinco minutos, bom, você teria que ligar para a família e os amigos, depois funerária e floricultura. Dois minutos atrasada, ela disse muito e nada do que queria dizer.
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Tentaremos novamente, claro. Não se apegue ao teclado, ou aos dedos gangrenados. Não se apegue a nada que não puder largar em trinta segundos. Eis um novo desafio.
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Façamos assim:
Hoje anseava por dizer, que fez as unhas só para te receber. Que tomou chuva e alguma dose de coragem só para fazê-lo compreender, que ela o ama demais para deixá-lo se arrepender.

domingo, outubro 14, 2007

31 Dias

Eu gosto de assistir noticiários,
De cafés filosóficos ou literários,
De coleções em ordem alfabética,
Do original, do civilizado, da ética.

Prefiro o frio ao quente, e o fervendo ao morno,
Prefiro chá de limão, e os teus braços em torno,
Prefiro a correria que a solidão, e a falta de atenção
Prefiro planejar um mês antes o feriadão.

Eu não gosto de beringela ou sapato apertado,
De quando abrem as cortinas sem eu ter acordado,
Não gosto de criaturas efusivas e desinibidas,
De chuva nos óculos e despedidas.

E mesmo correndo o risco,
De ser o parecer desse rabisco,
Recebi um dos seus poemas desestruturais,
31 dias serão infernais, te quero logo e sempre mais.

domingo, setembro 30, 2007

Do que passou, e calou

Chegou em casa por volta das sete horas da noite, sem sentir os pés. Ah, as pernas tão subestimadas a trouxeram para casa sã e salva, sem tropeçar nas pessoas ou pisar em poças d'água. Chegou com aquele cheiro de shopping, conhece? Aquele cheiro, aquele misto de fast food, café expresso com chantilly, ar condicionado e centenas de fragrâncias de perfumes, shampoos e desodorantes. E esse incômodo, nem o alívio de em casa chegar, nem o sofá acolhedor, nem o orgulho dos pés inchados é capaz de silenciar.
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Mas comecemos do início e vamos logo ao motivo da vida tê-la levado às multidões dos shoppings - o que não é um de seus maiores prazeres, para não dizer que é o menor. Precisava comemorar-se, eis a verdade. Não sentia tal necessidade, mas do mesmo modo como somos sociáveis quando não queremos ser, acabou por achar necessário. Comemorar-se. Mais um ano de altos e baixos, de picos, de beira de estrada, de escadaria de igreja. Mais um ano que faz dela a inconstância que esta boa moça é. "Está adiantada", um conhecido diria. Mas resolveu comemorar-se antecipadamente, com o objetivo de passar a data em branco sem parecer completamente infeliz consigo. Começar a segunda-feira como uma segunda-feria qualquer, de costas largas e ombros baixos. Começar o primeiro dia de sua vida, como um primeiro dia de mês; dia de pagar contas, de receber o salário e ver o mesmo sumir com a fila do banco.
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E foi. Sem o salto alto costumeiro, sem roupas sofisticadas. Jogou em si o velho jeans e o desbotado agasalho, e foi. Deveria ter chamado os poucos e bons amigos, os pais e a irmã que fosse, mas não; optou por cadeiras vazias e o Rilke que ganhou de presente. Cansou da falta de distração e de observar desconhecidos, assistiu um filme. Depois foi comprar seu presente, sem grandes expectativas. Seguindo o fluxo, às vezes na contra-mão pelo prazer de variar. Caminhando sutilmente, era um tanto de ambições, algumas lembranças e um dedo de tédio - um devaneio solto.
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"Talvez seja o sábado", justificou. Particularmente, ela odeia os sábados. É este o dia de pendurar no cabide todo o cansaço que a semana proporcionou, o dia do intervalo na correria, de perder-se propositalmente. Ah, a felicidade barata de um sábado. Quão cínica és tu.
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E, finalmente, mais um ano. Você, positivista, deve pensar "pobre mulher". Mas compreenda, ela aprendeu a duras penas que os anos ensinam coisas que os dias desconhecem. E, sem vontade de se encaixar no comum, no previsível, segue esta vida na contra-mão. Deseja comemorar-se, deseja essa atenção todos os dias do ano. Deus queira que nessa volta aos trilhos, tal dádiva seja concebida. E devidamente desfrutada.
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Voltemos ao final do começo. Do arrependimento de ter saído porta afora. Mas ao voltar, ao retornar pôde perceber que o que era merecidamente seu, por posse e direito, por ter compartilhado os melhores anos de sua vida, havia se libertado. Havia, sim, uma Gabriela no futuro do seu sempre amado e querido - e ainda assim, quase esquecido -, no seu forever and after, mas ao voltar-se para quem ela não soube cuidar, percebeu que esse nome mudara de endereço, e sobrenome. Encerrou este ano com uma dor profunda de perda perdida para sempre, belos lábios e poucas palavras.
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E o que virá, dirá.

domingo, setembro 23, 2007

Pormenores

Tanto homens quanto mulheres são mais felizes na guerra. Mesmo que seja uma guerra sem herói e sem causa, sem destino. É esta verdade que nos faz pelejar com a força de dez mil guerrilheiros por qualquer pequeno amor que seja. Consciente da morte ou da vida que possam ser encontradas ao fim de tal empreitada. Perguntam-me se a vida é maior que a morte, quando a única certeza é que o amor é maior que os dois.

Se quem chegou, partiu. Se quem virá, já foi. Só para quem fica os dias são todos iguais. E lágrimas fogem de ti; e lágrimas fogem de mim. E um rio se forma de nós. Se a vida é uma longa espera, então ensina-me a te esperar. Se a vida é breve primavera, deixe-me dela beber... E já.

Os enérgicos dias andam se entrepondo em nossas vidas, há muito tempo. O nosso ontem é tardio. O nosso hoje é muito pouco. E o nosso amanhã, ninguém sabe.

Eu quero te dizer que nada lamento. Se eu pudesse viveria tudo contigo outra vez - o nosso tudo sem pausa e sem nome - da maneira que foi. Porque da maneira que poderia ter sido, jamais saberemos.

domingo, setembro 16, 2007

Do you like me now?

Há uma filosofia nas poesias de todos os séculos, nas músicas, nos embriagados. Há em tudo que sente, uma filosofia, uma crença. Há uma crença, eu espero, na descrença dos céticos.
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Cínica, eu procuro ler e em mesmo tom escrever curtos parágrafos que instiguem à você, meu caro alguém. E nesses rabiscos avulsos eu procuro, plena de todo meu conhecimento em seu sentimento adormecido, abusar das figuras de lingüagem e da sinestesia. Que fique encoberto, não o faço para tornar explícita a minha verdade, como o bem de me supliciar que ela faz.
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Submersa na dor de um pseudônimo - que divide o meu reflexo em dois, enquanto eu escolho quem eu quero ser por hoje, e amanhã é depois. E se eu quisera este nome, tuberculoso e pungente, para que o faça refletir em suas lamentações matutinas, minha alma estará salva destes deuses capitalistas. Pois o farei, despretensiosa quanto ao resultado, ver que o seu fardo comparado ao meu é ridiculamente ínfimo. E nesse vereda de luz efêmera, você dará o valor subestimado à sua desprezível vida de alienado à uma era em que se come ouro no jantar.
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O meu propósito? É fazer você gostar de mim, certo de sua piedade e satisfação; quando eu, intencionalmente, não sou essa jovem escritora decadente coberta de limbo. Quando, na verdade, eu sou passos em sintonia com o resto do mundo, caminhando pela Oscar Freire. De Chanel e rímel.
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A minha crença, turva e vil, é na desconfiança desse mundo, e como você já deveria saber, na languidez da Verdade.